Falemos de Portishead

Dias desses, entrei numa louca busca por souvenirs musicais, até que me lembraram de um trio britânico, demasiadamente replicado aos ouvidos numa época  confusa da vida e que trouxe considerável alento pra minha mente.

Pois bem, apresento-lhes o Portishead.

O gênero trip-hop, que deu palco para bandas como Massive Attack e o músico Tricky, trouxe à cena musical dos anos 90 o excepcional Portishead, que introduziram às minhas playlists do pré-histórico Winamp há uns 8 ou 7 anos da seguinte forma: “Marcele, isso aqui é música para namorar pelado.” Olha… e é mesmo. Das letras cheias de possessão e melancolia até ao timbre de voz assustadoramente sedutor da vocal Beth Gibbons – uma espécie de Céu britânica, na minha humilde e pouco técnica opinião – é incontestável a sonoridade apaixonante e erótica do trio britânico.

E a coisa começou sem pretensão alguma. O objetivo era apenas pagar contas com dignidade. Lançaram o primeiro trabalho em 1995, o maravilhoso “Dummy”, que de tão bom tornou-se um sucesso na época, mesmo sem a intenção de tal. Três anos depois e ainda pegando carona na boníssima impressão deixada pelo primeiro álbum, veio “Portishead”, trabalho homônimo do trio – tanto no título como na qualidade similar ao primeiro. Esse segundo disco deu ao grupo certa estabilidade frente ao gênero, mantendo o Portishead como membro da Tríplice Aliança do Trip Hop.

Mas o “pulo do gato” da banda não está nos dois ótimos discos que citei e sim no hiato – decretado de 1999 até 2005 – para que os três membros do grupo pudessem dedicar-se a projetos paralelos e, consequentemente, evitar uma estafa que seria fatídica à qualidade sonora da banda, tendo em vista a já famosa ascensão do pop em suas mais variadas nuances.

E mesmo com o tempo refletindo-se no timbre vocal de Gibbons, fato que não permite agudos tão potentes como os dos anos 90 mas que traz ao legado musical da banda mais destaque ao instrumental e espetaculares arranjos produzidos por Geoff Barrow e Adrian Utley, fiéis escudeiros de Gibbons, em 2007 se reúnem e lançam “Third”, trabalho alinhado e plenamente conectado com a sonoridade primária do trio, talvez um pouco mais ousado – incluindo uma improvável e excelente pitada brasileira na faixa “Silence”, onde o ilustre desconhecido Cláudio Campos, professor de capoeira desde 2003 em Bristol, cidade-berço do trio, declama, em português, a seguinte mensagem:

“Esteja alerta para a regra dos três.
O que você dá retornará para você.
Essa lição você tem que aprender.
Você só ganha o que você merece.”

No Portishead nunca existiu o habitual “encher de linguiça” que toma conta de boa parte das bandas atuais e me incomoda bastante quando torna-se uma tentativa medíocre de repaginar um artista que se destacou por uma sonoridade x mas resolve se jogar em outra completamente contrária ao que lhe faz jus, e isso apenas pra obter status quantitativo em meio aos “caça niqueis” do momento, diga-se de passagem.

 Apesar de não lançar nada novo desde 2007, nunca declararam o fim da banda – o que é ótimo e bem mais sincero que essas presepadas de hoje em que bandas acabam, fazem turnê de despedida e voltam tão logo acabe o dinheiro. Preciso citar Los Hermanos, Forfun,  e mais uma pregada de bandas gringas? Não, né?

Bom, deixei aí pra quem lê esta bagaça a melhor maneira de conhecer o trio: “Roseland NYC Live”, álbum gravado com orquestra e o escambau. Prato cheio pra quem gosta de música e está meio enjoado das coisas que existem hoje em dia.

Ps: “All Mine” é a minha favorita por motivos de – tem que ouvir pra saber.

Pra resumir: Portishead é a tal da sofrência da minha época (velhice detected)
– só que essa, amigo, é um tesão de boa!

“SABER/FAZER/TER” – QUÊ?

Na vitrola –  “Maybe Tomorrow” Stereophonics

Quando voltei a postar neste humilde blog, juro que a intenção era escrever sobre o que penso do mundo, não de mim. Eu já fiz isso tantas vezes que hoje reconheço ter pecado pelo excesso em tanta exposição emocional – e literária. Contudo, entretanto, todavia… é, farei exatamente isso neste post pelos motivos que se seguem – e não necessariamente em ordem de relevância.

– O que vou escrever pode ser útil pra outras pessoas;
– O post valoriza a minha linha de pensamento;
– Porque eu quero, ué.

Beleza, mea culpa feita, seguirei meu baile.

Por esses dias eu me senti muito de saco cheio de tudo, de pessoas a lugares; De situações a condições; De opções a conduções. E esse grau de descontentamento foi tão gritante que eu me tornei a criatura mais indolente e procrastinadora que eu poderia ser, sem culpa alguma, menos ainda reflexão. Bom, ao chorar minhas pitangas pra única pessoa que consegue me entreter de alguma forma 90% agradável – e adorável,  eu até que senti certo conforto, alívio. Bateu aquele estalo traiçoeiro de “Opa! Não tô maluca e não é exclusividade minha tal insatisfação geral. Menos Mal”. E traiçoeiro por quê? Porque é nele que mora o perigo.

Saber que alguém vê (ou passa pelas) as mesmas coisas que você vai ajudar, não solucionar.
(E a gente, erroneamente, sempre acredita que ajuda e conforto nos libertam de qualquer demônio cotidiano)

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Tamo junto, mano Logan

Independente da constatação acima, depois de superar temporariamente a fase “Ó vida, ó azar”, parti para o que realmente interessa nessa vida de merda: solução. E o que meu cérebro ofereceu? Só ideia de bosta, claro.

– Se pagar 75% de imposto numa casquinha que me tira do bolso R$2,00 me revolta tanto, então morar no exterior é a solução;
– Se eu estou desmotivada na vida pós-faculdade, então me entupir de atividades legais e fofas é a solução;
– Se eu, definitivamente, não gosto do meu bairro, então a solução é morar num “meia-água”, comer comida congelada e andar toda amarrotada por aí;
– Se eu ando tão ansiosa e agoniada, então a solução é encher o bucho de porcarias industriais ;
– Se a insônia está me roendo os ossos, então a solução é assistir um filminho maravilhoso 3am;
– Se tem trabalho até 2056, então a solução é praticar o bom e velho home-office;
– Se … (ah, isso eu vou deixar em off porque não cabe no poema expor).

Como disse, só ideia bosta.
“Mas, pera: Marcele, não são ideias tão bostas assim. Para de exagerar, criatura!”
São sim, filhão. E vou dizer o porquê (e daqui pra frente vem a primeira parte que acredito servir pra quem vai ler isso)

Após uma senhora semana caótica e confusa, absolutamente do nada o esclarecimento e o bom senso deram o ar da graça e eu cheguei à seguinte conclusão: POUCO IMPORTA

– se na Suíça eu seria mais feliz porque lá tem menos impostos,
– se fazer dança, academia, auto-escola, pós-graduação e curso de massoterapia manterá minha mente e meu corpo mais ativos,
– se, na semana que vem, meu chefe aumentou meu salário e me mudarei pra Botafogo, de frente pra Enseada,
– se comer é condição humana e que se dane eu vou comer muito mesmo,
– se eu tô indo dormir 23h e sem horário de verão em vigor,
– se o home-office é meu pastor e nada me faltará;
– se  (continua não cabendo no poema explicitar essa parte da confusão mental).

Pouco importa porque o problema não está no imposto, na indolência e preguiça, no bolso, no bairro, na gordice, na insônia, no jeito workaholic de ser e na paradinha que não quero explicitar. O problema está unica e exclusivamente em MIM, e eu vou continuar nessa bagaça de vibe ruim e insatisfeita em qualquer lugar do mundo, sob qualquer condição, exercendo qualquer tarefa porque o ato de reclamar me impede de agir e trabalhar com a realidade que tenho, não com aquela que eu quero.

E o que eu quero, Mário Alberto?

Pois é, aí é que tá. Eu não sei. Atualmente, a única coisa que me remete a alguma certeza não tá certa – sad but true, além de confuso demais. O que percebo (e aí vem outra parte pertinente pra quem lê) é que nos sabotamos o tempo inteiro. Procuramos desculpas pra tudo, poréns pra tudo, razões pra tudo. Vai ver que não existe nenhuma razão realmente aparente pra tanto incômodo geral da minha parte – o que é pouco provável. Ou vai ver é só uma fase e há de passar; Ou então eu tô sendo completamente imbecil e perdendo a oportunidade de repensar numa série de coisas que surtirão considerável efeito futuro só porque estou preocupada com… o futuro.

É muita redundância pra uma pessoa só, Brasil!
(E pensar nisso tudo não me levará a lugar nenhum, já sei)

Como eu fiquei com a última opção, digo que não é fácil se admitir trouxa e ignorante, mas necessário. Parênteses : quanto mais a gente se enxerga capaz de algo, menos potencializamos nossas energias naquilo. A gente não se dedica, só executa –  e a cobrança interna é aterrorizante. Agora, vá e faça algo que nunca imaginou fazer. É um outro tipo de tesão. É outra sensação. É Copa do Mundo com mata-mata. É lindo! É TETRA!

Disseram-me verdades nesta sexta-feira que impactaram meu id, ego e  superego. Não doeu mas machucou. Criou aquela casquinha, sabe? E o desafio daqui pra frente é deixar a casca cumprir seu papel e se segurar pra não arrancá-la antes da hora.
(lá vem o terceiro, derradeiro e último conselho neste post – e o melhor, de longe)

“Saber esperar e saber agir” é a ordem, porém não é maior que:
“Aprenda para saber, não só para ter.”

Parênteses: o petardo filosófico acima foi dito pela minha maravilhosa cabeleireira e amiga, Verônica, a quem devo muitos lampejos de inteligência e racionalidade nos últimos anos.

Não vou mentir e dizer que estou me sentindo tal qual uma libélula saltitante e que tudo melhorou após a reflexão porque, é claro, ainda me sinto muito de saco cheio. A diferença é que, no saco, tem o descontentamento, a inconstância e a preocupação (e sempre vai ter), mas também tem um bom punhado de astúcia pra me aproveitar do que eu tenho e esquecer (pelo menos até que eu perca o controle mental novamente) do que eu não tenho, AINDA.

Solidão em troca de política? Dispenso.

É sempre assim: chega o período eleitoral e junto com ele aquela vontade absurda de convencer todas as pessoas do mundo a pensarem como você. Ou, pelo menos, a entenderem suas escolhas. Não é um tanto quanto pretensioso demais? Bom, me parece que sim. E não digo isso pela questão partidária da coisa e menos ainda por apreciar o já famoso “ficar em cima do muro”, digo pelo simples fato de que perdemos tempo, energias e até o bom humor numa dessas. Amizades são desfeitas, opiniões são desrespeitadas. E tudo isso por causa de política? E tudo isso pra que a sua ideia do que é correto prevaleça? Pare, respire fundo e pense: Será que você sabe mesmo o que faz sentido na política? Será que medir amizades pelo pensamento político do seu coleguinha é coerente com aquilo que o tal do “ser amigo” deve significar?

Pois é, enquanto você pensa aí eu seguirei com meu texto. Ok?

Eu concordo em gênero, número e grau que política é um tema recorrente e de extrema relevância na nossa sociedade, viver em democracia, em síntese, é isso. Porém discordo completamente que essa mesma política seja responsável por homéricas discussões estúpidas e demais malefícios ao nosso convívio. E aí você vai dizer que não é discutir, é expressar o seu ponto de vista, certo? E aí, caro leitor, eu vou dizer para você o seguinte: ponto de vista não é sinônimo de verdade absoluta. É bonito, poético e emblemático que tantas pessoas se dediquem a uma causa, seja ela qual for, contudo, é menos bonito, poético e emblemático a possibilidade do meu ponto de vista ser amplamente diferente do seu? Sim, deixei outro questionamento pra você refletir. De nada.

Óbvio que algumas coisas devem ser discutidas, desde aborto até discriminação racial, só que tais temas não são, necessariamente, atrelados à política. Ainda que apareçam casos alarmantes como, por exemplo, as recentes declarações do presidenciável Levy Fidelix, isto não quer dizer que as problemáticas da sociedade giram em torno dos políticos. Eles são, de fato, formadores de opinião, mas a coisa adotou proporções que ultrapassam as siglas partidárias, compreende? Não é culpa da Dilma ou do Aécio que o seu vizinho agride a esposa pela noite. Não é culpa do PT ou do PSDB que o termo macaco seja proferido aos negros como se fosse um bom dia. Não é culpa, e aí não é MESMO, de nenhum partido que você ainda não entenda que não somos reis e rainhas da razão, e sim súditos dedicados das dúvidas e questionamentos. Prova disso é que eu deixei uns dois soltos no texto pra reflexão e não tenho nenhuma verdade reconhecida em cartório para oferecer, não.

E, só pra lembrar: o voto deveria ser secreto. Então, no melhor dos mundos, cada um escolheria quem melhor lhe agradasse e pronto, fim de papo. Você não teria desperdiçado sei-lá-quantos caracteres no seu Facebook, desfeito sei-lá-quantas amizades e tido sei-lá-quantas dores de cabeça desde que o período eleitoral começou. Ao analisar o quão chato todo mundo se torna quando há eleições, consigo entender a razão pela qual a sua escolha nas urnas não deveria ser divulgada: única e exclusivamente pra você sobreviver a este período enlouquecedor.

Lembra da primeira “pulga” que coloquei atrás da sua orelha? Pois bem, voltemos à ela sob o seguinte mote: Reza a lenda – e também a vida real e fatos reais – que todo político é safado, não presta, não possui focos e propostas concretas e, portanto, seu objetivo-mor dentro da política é sugar o povo através de impostos e salários exorbitantes. Logo, se o canto da sereia  é esse, concorda que não é nem um pouco racional fundamentar 3 ou 4 meses da sua vida em ideologias políticas que nem mesmo você confia, nem mesmo você acredita? Outra vez, convido-o a parar, respirar fundo e pensar. Não, eu não quero verdades, eu quero que você reflita, pondere e avalie, porque se tem uma coisa na qual eu acredito surtir efeito em qualquer ser humano do planeta é a vasta exploração do cérebro. Divirta-se na busca pelas respostas que nunca teremos. Se quiser, faça até uma pipoca pra acompanhar o espetáculo que é descobrir-se um completo comedor de mosca que só reage e age, mas não produz.

E agora que o momento se aproxima, se afaste dessa ideia estapafúrdia de reclamar do raio da política, incluindo candidatos, partidos, causas e demais fundamentalismos ao mesmo tempo em que a executa nas suas redes sociais, com seus amigos, com sua família ou até na padaria. Afinal de contas, domingo você precisa votar e tanto faz se você quer ou não porque diferente da “lenda urbana do voto secreto”, votar é obrigatório e implica numa série de punições àqueles que não o fazem. Não é? E será que não é este o X da questão? Opa! Finalmente cheguei onde queria. E espero, não exijo, que você chegue também.

Em suma: mesmo que vote no Garotinho eu seguirei sua amiga, filha, colega, conhecida, flerte, vizinha etc. E prazeirosamente escrevendo pra você.

Quando a Conta Não Bate

Soma tudo e subtrai. Depois divide e multiplica. Mas a conta não bate, não fecha. O que falta? Desaprendeu a fazer as operações matemáticas? Caiu em desuso o uso das fórmulas a seu favor? Que pavor! Você realmente não se lembra mais da álgebra. E talvez nem ela lembre de você também.

Calma. Respira fundo e recomeça. De novo? Ah, não importa. Pensa que a conta não bate, não fecha. E ela tem que fechar, tem que. Faça! Não? Deu errado? Outra vez? Com essa, já são três. Espera e não se desespera. Vai bater.

Troca o lápis. É isso. A ponta gasta pode prejudicar o desenrolar do serviço. Pega um novo, de ponta fina, mais alinhado com o seu traço, com essa sua caligrafia. Trocou? Melhorou? Então, novamente. Fecha e… Mas não pode ser!

Os produtos estão corretos? É isso mesmo? Não falta nada? Subiu quantas casas? E os zeros? Pegou emprestado? Abaixa o dois, vai dar um. Olha isso. Tá vendo? Não tá? Como assim? Olhe bem. E agora? E agora nada. Não bate. Não fecha. Que merda!

Devagar, sem pressa. Pega caneta, é o que resta. Sem rascunhos, vai direto. Faz, refaz. Vai que dá certo? Arma a conta, usa a cabeça e não enlouqueça. Troca a ordem dos fatores. Multiplica tudo e divide. Depois soma e subtrai. E aí? Tanto faz?

É… o resultado é o mesmo, e exato:
a ordem de nenhum fato altera o teu ponto fraco.

Não pode ser.

A vida não pode ser as camisas que você não quer lavar pra conservar um cheiro qualquer, que lembra uma coisa qualquer. Não pode ser nem homem e nem mulher. Não pode ser o mar de remorso que você carrega diariamente pelos equívocos que cometeu. Não pode ser uma ferida que sempre doeu. A vida não pode ser pautada no meio-termo, entre ternos e termos. A vida não pode ser apática, nem rasa ou superficial. A vida deve ser suja, faceira, intrépida e arteira. A vida não pode ser medíocre, você não pode ser medíocre. A vida não pode ser a buzina do carro ao lado, nem a fila certa no banco errado. A vida não pode ser um beijo de novela. A vida tem que ser aquele beijo de rua sem retoques, sem arte. O beijo que traduz a vontade. A vida pode ser uma viagem feita sem sair do lugar. Pode ser um lugar que você nunca foi, mas sente-se como se estivesse por lá. A vida não é um diploma, nem um diploma é a vida. A vida não pode ser uma obrigação. A vida é prazer, é luxúria, é tesão. A vida não pode ser desânimo, descontentamento. A vida não pode ser um eterno lamento. A vida pode ser o que alguém deseja pra você, a vida pode ser as idas e vindas de um bem-querer. A vida não pode ser a letra miúda da embalagem, nem as informações sobre calorias. A vida pode ser prática, e não apenas teoria. A vida não pode ser as contas que chegam no mês, nem o dinheiro que se esvai de uma só vez. Pode ser medo, mas precisa ser ação. A vida não pode ideologia, menos ainda utopia. A vida não pode ser a manchete do jornal. Não pode ser saudade, mas pode ter lembrança. A vida pode ser o choro sincero do adulto, ou o riso inocente da criança.

Então para. E repara. E realiza.
A vida não é só furacão. A vida também é brisa.

Avesso.

Era pra ser uma coisa, bonita até. Foi outra. Era pra dar certo, uma aposta a dois. Deu errado, e cada um foi pro seu lado.

Ela pegou a avenida da esquerda, aquela que cruzava com frustrações e mágoas, bem de esquina pro vazio e pro descaso. Ele, desnorteado, entrou num beco sem saída, e se jogou no colo da primeira rapariga, afago de um breve meio-dia, pra depois voltar à melancolia. Ela queria porque queria. Nem mesmo a razão direito ela sabia. Justificava as mãos dadas como algo meticulosamente planejado. Estratégias daquele tal destino selado. Ele queria soltar e se soltar. Ir por aí e ver no que dá, o encanto deu o que tinha que dar.

Ela disfarçou o desinteresse, ele negou verdades. Que mal há em deixar tudo do jeito que está? Que bem há em estar por estar? Soluções na contramão do afeto, do bem querer. Ela não quer mais saber. E ele sequer já quis. Não tem jeito: quando chega, o dissabor assola. Não há alegria que perdure, nem desesperança que acabe. O gosto amargo do quase não é insípido.

E arde.

“Não é a vida como está…

e sim as coisas como são.”

E daí que eu resolvi correr. Sim, a Marcele resolveu correr. A viciada em Coca-Cola e amiga inseparável da preguiça, em suma, está correndo. Mas, ao contrário do pensamento e questionamento de muitos, o ato em si vai além de comprar um tênis e ir de um canto a outro. Vai além de postar uma gracinha ali e outra acolá. Vai além até de mim, para ser sincera.

Sem querer – e sem perceber, coisas acontecem com a gente. Comigo foram muitas, sendo que todas elas convergiam para uma palavrinha totalmente comum em qualquer canto do mundo: depressão. Você não quer fazer nada, você não quer entender nada, você nem mesmo se quer. E isso toma conta das suas horas e se converte em hábitos, em comodismos. Quando você percebe, está infeliz, na merda. E parado exatamente no mesmo lugar.

Daí por diante é ladeira abaixo. Comparamos nossas vidas com a vida dos outros – que, aparentemente, são as pessoas mais felizes do planeta – qualquer crítica ou pensamento divergente nos levam a um balde cheio de lágrimas e nada, absolutamente nada mais faz sentido. A maldade, a ganância, o egoísmo e a individualidade do mundo me deixaram assim, meio amarga de uns tempos pra cá. E triste. Bem triste.

Mas nada disso era óbvio, esclarecido. Pra mim, tratava-se apenas da resultante sobre as escolhas que eu fiz e eu devia encarar tudo com naturalidade. Erro e acerto. Acerto e erro. Equívocos. Uns, remediados. Outros, nem tanto. E, no meio de tanta confusão e incerteza, eu deixei que alguém entrasse pra somar. Alguém que, na verdade, veio atrás de cura. A cura pro mal que compartilhávamos, ela ciente disso e eu, nem um pouco.

E foi curando essa pessoa que eu encontrei meu antídoto. Vi minhas palavras amigas se refletindo no que eu também deveria saber. E fazer. Num momento, veio um estalo. E eu quis fazer alguma coisa por mim que não envolvesse, necessariamente, meu baleadíssimo coração com um monte de “poréns”, os problemas familiares e menos ainda um currículo profissional a zelar. Algo que emanasse positividade em mim, a mesma que passei a ver na pessoa em questão. Algo que fizesse bem e me desafiasse enquanto ser humano, não formadora de opinião de ninguém. Assim, decidi correr. Assim, optei pela novidade que a mesmice não traz de jeito algum – e que blindaria a depressão de uma só vez.

Antes de entender, julguei, claro. Via o ato de correr como uma “modinha”. Até que conheci algumas histórias embasadas na atividade em si. E crio agora mais uma, a minha. Superação do corpo e cura da mente. Eu sou novata no assunto mas posso dizer com precisão que sinto-me bem melhor, animada, abastecida pra vida. A endorfina transforma qualquer ideia em ação.

Não, eu não estou correndo pra “ficar gostosa” como um imbecil veio me sondar. Eu sou gostosa. Mesmo que não tenha essas coxas de tora ou glúteos de aço que figuram o meio, eu sou. Todo mundo é, acredito eu. Do meu jeitinho, sou. E você também. Minha “gostosura”, o charme da Marcele nunca esteve na forma e sim no conteúdo. Se vou tornear, emagrecer, chapar ou sei lá o quê, bem pouco importa. Isso tem bem mais a ver com meus 27 anos e uma qualidade de vida péssima. Uma imunidade de bosta. Uma resistência física medíocre. Amor próprio e equilíbrio, diria. O mundo não vai me amar caso eu esteja em pedaços. Vai? Duvido.

A vida é breve. Hoje mesmo meu vizinho foi pegar a pipa dos moleques num fio de alta tensão e morreu. Do nada. E o que quero dizer com isso? Simples: o fim, propriamente dito, não prenuncia o momento de chegar. Ele chega e ponto. E eu não sei de uma série de coisas, ainda, mas uma das poucas coisas firmes no meu pensamento é que eu não quero morrer por dentro, me esfarelar. Logo, enquanto o fim real não chega, prefiro repelir o fim fantasioso, o fim que fica e não vai embora enquanto não sobra nada de você e assim impede de tantas coisas boas. A derrota antes mesmo que a batalha seja decretada: não queira isso pra si.

Enfim, é só mais um post pessoal (GIGANTE) que nem gosto muito de fazer mas achei pertinente pro momento. Estou me preparando pra encarar algo que eu jurei de pés juntinhos jamais fazer. E sei que não será fácil porque nada, absolutamente nada na minha vida é ou foi  fácil, mero sopro no ar, dádiva que cai do céu. Porém, a dificuldade é a menor das preocupações quando há vontade. E há muita, muita vontade em fazer as coisas de um jeito mais eficaz do que reclamar da vida, de tudo – e (quase) todos.

Bom, e só pra fechar o link do título, “Meninos e Meninas” do Legião Urbana. Uma música que tem ecoado na minha cabeça nos últimos dias e que faz total, total sentido com o presente momento e as coisas que, correndo ou não, querendo ou não, a gente acaba deixando para trás a fim de seguirmos em frente, sempre em frente. Afinal, não há mais tempo ALGUM a perder.

Sobre pontes de argila e pontes de barro.

Prólogo do post – Precisava muito dormir e o sono deu lugar ao ombro amigo e uma interessante reflexão que merece registro. Parafraseando: “Marcele é uma psicóloga informal diferente. Ela é socrática. Ela fala com a gente.”

Relacionamentos, de qualquer espécie, estabelecem vínculos – amigos, parentes, conhecidos, músicas, objetos, roupas, hábitos, datas etc. Enfim, vínculos. Você conhece as pessoas e se afeiçoa a elas. Algo normal e aceitável, ninguém aqui é feito de lata. E o mesmo se segue para as informações e referências que você atrela pra sua vida a partir de um relacionamento.

No delírio de hoje, chamarei os tais vínculos de PONTES.

Seus amigos. Vocês frequentam os mesmos lugares. Eles conhecem seus pais. Se vocês brigam, é do senso comum que se afastem; Se os seus pais gostam deles, vão estranhar se você parar de falar com eles. Pontes de argila versus Pontes de barro.

Um namoro. Você compartilha a sua vida com alguém. Você compartilha outros relacionamentos de sua estima com alguém. Se o namoro acaba, acaba também a parceria; As pessoas que foram atreladas a você precisam se acostumar e aceitar a sua ausência – ou se adaptar a mudança; Pontes de argila versus Pontes de barro.

No dicionário Marcelístico de Delírios consta que:

– Pontes de Argila: são aqueles vínculos que você MANTÉM por inúmeras razões e que convergem para o seu próprio bem-estar dentro do relacionamento. Novos amigos, novas referências, um livro emprestado, uma roupa que esqueceram na sua casa, um lugar e por aí vai. Tudo isso você conserva na sua vida pelo TEMPO QUE QUISER, do jeito que quiser, pelos poréns que quiser.

– Pontes de barro: são aqueles vínculos que você DESFAZ ou MODIFICA por inúmeras razões e que convergem para o seu próprio bem-estar ao FINAL de um relacionamento e INÍCIO DE NOVO CICLO, a tal virada de página.

Não tem jeito: há momentos na vida em que precisamos nos desprender das nossas pontes de argila e dar lugar às pontes de barro, por mais que pessoas e coisas boas tenham permeado a relação. E você nem sempre vai perceber isso do jeito mais sutil. Pode ser através de uma decepção, de um comportamento egoísta inesperado ou até de um acontecimento drástico, o meio pouco importa porque o diferencial estará no fim – e o fim é e sempre será você.

Quando um relacionamento fecha seu ciclo e você mantém as pontes de argila no seu caminho – que já se dá por novo mediante o término – elas se tornam o seu pior inimigo. Elas são a falsa esperança de que algo ainda há de somar; São a última carta na manga para uma aposta fajuta; São uma ilusão que você condensa nos seus dias como garantia de oportunidade para reviver algo que já acabou, tanto pra você como pro outro lado.

Por isso que devem existir as pontes de barro, que nada mais são que a sua predisposição a adaptar tudo que você agregou para si à realidade que implica o término do relacionamento, seja lá da forma que for. Boa parte de tudo que você mantém já não é mais um problema seu, já não merece a sua preocupação e consideração. Certamente terá alguém que se ocupará com essas coisas – e você não precisa sentir-se preso a elas, como se devesse eterna estima. Quando você traz pro seu novo caminho as pontes de argila aprende a lidar melhor com tudo – de situações a pessoas – e segue em frente com menos culpa e menos vínculos.

Calma, não sou esse Coração Gelado. Claro que há ressalvas. Eu falo por mim, que tenho ótimo relacionamento com boa parte das pessoas que atrelei para vida graças aos relacionamentos fracassados – dos poucos namoros às amizades falidas; Deixei de ser amiga de uma colega de escola e me tornei amiga da mãe dela; Deixei de ser nora e me tornei amiga de Facebook; Me aproximei ainda mais de amigos dos ex-namorados que me acrescentavam coisas boas. Enfim, eu adaptei o que me fazia bem – e descartei, no meu tempo, o que fazia mal, fazia nada.

Pontes de argila versus pontes de barro  é a leitura que fiz ainda há pouco, com uma pessoa cheia de pontes de argila, para a arte do desapego. Não estou certa se consegui passar pra cá o que estava na minha cabeça, mas é por aí. Superar não é fácil, e nem impossível. É preciso querer e se perceber bem maior do que essas pontes de argila que a gente cisma em manter e que nos prendem a suposições que nunca nos deixarão em paz – a menos que você volte olhos, força e braços para construir outras pontes. As pontes de barro.

Ragazza

A menina merecia descanso. E, talvez, um pouco de descaso. Voltar o seu corpo para o seu próprio espaço. Mergulhar em seus próprios oceanos. Disparar com suas próprias armas. Por tantas vezes voltou as mãos a ombros largos e vazios. Ou então, ousando desafiar suas próprias vontades, deu corda num sentimento estacionado até segunda ordem. Não se forçou a amar por não apreciar o risco? Foi isso? Estagnou-se? Não. Estragou-se? Também não.

Numa tarde de domingo, sentou-se junto de garrafas vazias e cabeças em similar estado. Olhou para as garrafas. Olhou para os lados. Olhou para si. Ao não ver nada, em nada, descobriu do que precisava. Precisava de alguém, não de vários. Não mais eram necessários outros rostos, outras vozes e outros lábios. Sensações delicadas e singelas se condensaram em tudo que sempre oferecem os mais fáceis atalhos.

E, a partir de um estalo, sentiu-se leve o bastante para constatar que não podia deixar sua peculiaridade escoar pelo ralo. Não, ela não se fez de rogada: chutou as malditas garrafas e empoleirou-se no primeiro coletivo que encontrou. Fugiu sem que ninguém percebesse, nem mesmo ela. Sem sapato de cristal, lá se foi mais uma Cinderela.

Pelo caminho, remendou-se por conta própria usando a cola do pensamento. Palavras soltas e presas;  Frases prontas e mal acabadas; O que doou e não resgatou; Um rosto único sem par pra rejunte. Em vão. Faltou vedar o que havia de sobra no coração, até então. Pausa. O coletivo parou, e no destino previsto ela chegou.

Rumou ao canto que não é seu, mas era onde selava refúgio. Um banho, um copo de café e um barulho que refrescava. Trocou o calor pelo vento frio até que adormeceu e sua alma passeou por um sonho que já teve outrora. Um sonho pesado, a prévia do que ignorava para ela mesma. E agora?

“As coisas são como são, ragazza.
Vai por mim, ou vá por onde quiser.
Mas esteja certa de que as coisas são como são.”

Dizia o sonho assim. Sem face, nem crase.
Enfim.

Quando acordou, já era outra. Quando levantou, já tinha ido longe. E por ter ido tão longe que agora precisa descansar, sozinha, sem ninguém pra acalentar. Esvaziou a mente, deixou poucos elementos por perto e entendeu da maneira mais fácil que algumas coisas são porque precisam ser.

Dos amigos aos inimigos, dos amantes aos mal-amados, dos infelizes aos extasiados – não poupou ninguém, nenhum. Arquivou todos numa caixa enorme, de importância mínima. Guardo aqui o corpo, as atitudes, em outro lugar, dizia. Qual? Não sei, ela não me contou – ainda.

Por fora, a menina me parecia tão calma e tranquila, embora existisse dentro de si uma monstruosa euforia. Um turbilhão de sim e não, onde só ela sabia o que a deixava ir e o que a deixava ficar. Afinal, após alguns dias, aquela mesma menina se libertaria de um breve delírio dado em um único dia em meio a fugas, rupturas e suturas, estivesse a tal caixa cheia

ou miseravelmente vazia.