“SABER/FAZER/TER” – QUÊ?

Na vitrola –  “Maybe Tomorrow” Stereophonics

Quando voltei a postar neste humilde blog, juro que a intenção era escrever sobre o que penso do mundo, não de mim. Eu já fiz isso tantas vezes que hoje reconheço ter pecado pelo excesso em tanta exposição emocional – e literária. Contudo, entretanto, todavia… é, farei exatamente isso neste post pelos motivos que se seguem – e não necessariamente em ordem de relevância.

– O que vou escrever pode ser útil pra outras pessoas;
– O post valoriza a minha linha de pensamento;
– Porque eu quero, ué.

Beleza, mea culpa feita, seguirei meu baile.

Por esses dias eu me senti muito de saco cheio de tudo, de pessoas a lugares; De situações a condições; De opções a conduções. E esse grau de descontentamento foi tão gritante que eu me tornei a criatura mais indolente e procrastinadora que eu poderia ser, sem culpa alguma, menos ainda reflexão. Bom, ao chorar minhas pitangas pra única pessoa que consegue me entreter de alguma forma 90% agradável – e adorável,  eu até que senti certo conforto, alívio. Bateu aquele estalo traiçoeiro de “Opa! Não tô maluca e não é exclusividade minha tal insatisfação geral. Menos Mal”. E traiçoeiro por quê? Porque é nele que mora o perigo.

Saber que alguém vê (ou passa pelas) as mesmas coisas que você vai ajudar, não solucionar.
(E a gente, erroneamente, sempre acredita que ajuda e conforto nos libertam de qualquer demônio cotidiano)

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Tamo junto, mano Logan

Independente da constatação acima, depois de superar temporariamente a fase “Ó vida, ó azar”, parti para o que realmente interessa nessa vida de merda: solução. E o que meu cérebro ofereceu? Só ideia de bosta, claro.

– Se pagar 75% de imposto numa casquinha que me tira do bolso R$2,00 me revolta tanto, então morar no exterior é a solução;
– Se eu estou desmotivada na vida pós-faculdade, então me entupir de atividades legais e fofas é a solução;
– Se eu, definitivamente, não gosto do meu bairro, então a solução é morar num “meia-água”, comer comida congelada e andar toda amarrotada por aí;
– Se eu ando tão ansiosa e agoniada, então a solução é encher o bucho de porcarias industriais ;
– Se a insônia está me roendo os ossos, então a solução é assistir um filminho maravilhoso 3am;
– Se tem trabalho até 2056, então a solução é praticar o bom e velho home-office;
– Se … (ah, isso eu vou deixar em off porque não cabe no poema expor).

Como disse, só ideia bosta.
“Mas, pera: Marcele, não são ideias tão bostas assim. Para de exagerar, criatura!”
São sim, filhão. E vou dizer o porquê (e daqui pra frente vem a primeira parte que acredito servir pra quem vai ler isso)

Após uma senhora semana caótica e confusa, absolutamente do nada o esclarecimento e o bom senso deram o ar da graça e eu cheguei à seguinte conclusão: POUCO IMPORTA

– se na Suíça eu seria mais feliz porque lá tem menos impostos,
– se fazer dança, academia, auto-escola, pós-graduação e curso de massoterapia manterá minha mente e meu corpo mais ativos,
– se, na semana que vem, meu chefe aumentou meu salário e me mudarei pra Botafogo, de frente pra Enseada,
– se comer é condição humana e que se dane eu vou comer muito mesmo,
– se eu tô indo dormir 23h e sem horário de verão em vigor,
– se o home-office é meu pastor e nada me faltará;
– se  (continua não cabendo no poema explicitar essa parte da confusão mental).

Pouco importa porque o problema não está no imposto, na indolência e preguiça, no bolso, no bairro, na gordice, na insônia, no jeito workaholic de ser e na paradinha que não quero explicitar. O problema está unica e exclusivamente em MIM, e eu vou continuar nessa bagaça de vibe ruim e insatisfeita em qualquer lugar do mundo, sob qualquer condição, exercendo qualquer tarefa porque o ato de reclamar me impede de agir e trabalhar com a realidade que tenho, não com aquela que eu quero.

E o que eu quero, Mário Alberto?

Pois é, aí é que tá. Eu não sei. Atualmente, a única coisa que me remete a alguma certeza não tá certa – sad but true, além de confuso demais. O que percebo (e aí vem outra parte pertinente pra quem lê) é que nos sabotamos o tempo inteiro. Procuramos desculpas pra tudo, poréns pra tudo, razões pra tudo. Vai ver que não existe nenhuma razão realmente aparente pra tanto incômodo geral da minha parte – o que é pouco provável. Ou vai ver é só uma fase e há de passar; Ou então eu tô sendo completamente imbecil e perdendo a oportunidade de repensar numa série de coisas que surtirão considerável efeito futuro só porque estou preocupada com… o futuro.

É muita redundância pra uma pessoa só, Brasil!
(E pensar nisso tudo não me levará a lugar nenhum, já sei)

Como eu fiquei com a última opção, digo que não é fácil se admitir trouxa e ignorante, mas necessário. Parênteses : quanto mais a gente se enxerga capaz de algo, menos potencializamos nossas energias naquilo. A gente não se dedica, só executa –  e a cobrança interna é aterrorizante. Agora, vá e faça algo que nunca imaginou fazer. É um outro tipo de tesão. É outra sensação. É Copa do Mundo com mata-mata. É lindo! É TETRA!

Disseram-me verdades nesta sexta-feira que impactaram meu id, ego e  superego. Não doeu mas machucou. Criou aquela casquinha, sabe? E o desafio daqui pra frente é deixar a casca cumprir seu papel e se segurar pra não arrancá-la antes da hora.
(lá vem o terceiro, derradeiro e último conselho neste post – e o melhor, de longe)

“Saber esperar e saber agir” é a ordem, porém não é maior que:
“Aprenda para saber, não só para ter.”

Parênteses: o petardo filosófico acima foi dito pela minha maravilhosa cabeleireira e amiga, Verônica, a quem devo muitos lampejos de inteligência e racionalidade nos últimos anos.

Não vou mentir e dizer que estou me sentindo tal qual uma libélula saltitante e que tudo melhorou após a reflexão porque, é claro, ainda me sinto muito de saco cheio. A diferença é que, no saco, tem o descontentamento, a inconstância e a preocupação (e sempre vai ter), mas também tem um bom punhado de astúcia pra me aproveitar do que eu tenho e esquecer (pelo menos até que eu perca o controle mental novamente) do que eu não tenho, AINDA.

Solidão em troca de política? Dispenso.

É sempre assim: chega o período eleitoral e junto com ele aquela vontade absurda de convencer todas as pessoas do mundo a pensarem como você. Ou, pelo menos, a entenderem suas escolhas. Não é um tanto quanto pretensioso demais? Bom, me parece que sim. E não digo isso pela questão partidária da coisa e menos ainda por apreciar o já famoso “ficar em cima do muro”, digo pelo simples fato de que perdemos tempo, energias e até o bom humor numa dessas. Amizades são desfeitas, opiniões são desrespeitadas. E tudo isso por causa de política? E tudo isso pra que a sua ideia do que é correto prevaleça? Pare, respire fundo e pense: Será que você sabe mesmo o que faz sentido na política? Será que medir amizades pelo pensamento político do seu coleguinha é coerente com aquilo que o tal do “ser amigo” deve significar?

Pois é, enquanto você pensa aí eu seguirei com meu texto. Ok?

Eu concordo em gênero, número e grau que política é um tema recorrente e de extrema relevância na nossa sociedade, viver em democracia, em síntese, é isso. Porém discordo completamente que essa mesma política seja responsável por homéricas discussões estúpidas e demais malefícios ao nosso convívio. E aí você vai dizer que não é discutir, é expressar o seu ponto de vista, certo? E aí, caro leitor, eu vou dizer para você o seguinte: ponto de vista não é sinônimo de verdade absoluta. É bonito, poético e emblemático que tantas pessoas se dediquem a uma causa, seja ela qual for, contudo, é menos bonito, poético e emblemático a possibilidade do meu ponto de vista ser amplamente diferente do seu? Sim, deixei outro questionamento pra você refletir. De nada.

Óbvio que algumas coisas devem ser discutidas, desde aborto até discriminação racial, só que tais temas não são, necessariamente, atrelados à política. Ainda que apareçam casos alarmantes como, por exemplo, as recentes declarações do presidenciável Levy Fidelix, isto não quer dizer que as problemáticas da sociedade giram em torno dos políticos. Eles são, de fato, formadores de opinião, mas a coisa adotou proporções que ultrapassam as siglas partidárias, compreende? Não é culpa da Dilma ou do Aécio que o seu vizinho agride a esposa pela noite. Não é culpa do PT ou do PSDB que o termo macaco seja proferido aos negros como se fosse um bom dia. Não é culpa, e aí não é MESMO, de nenhum partido que você ainda não entenda que não somos reis e rainhas da razão, e sim súditos dedicados das dúvidas e questionamentos. Prova disso é que eu deixei uns dois soltos no texto pra reflexão e não tenho nenhuma verdade reconhecida em cartório para oferecer, não.

E, só pra lembrar: o voto deveria ser secreto. Então, no melhor dos mundos, cada um escolheria quem melhor lhe agradasse e pronto, fim de papo. Você não teria desperdiçado sei-lá-quantos caracteres no seu Facebook, desfeito sei-lá-quantas amizades e tido sei-lá-quantas dores de cabeça desde que o período eleitoral começou. Ao analisar o quão chato todo mundo se torna quando há eleições, consigo entender a razão pela qual a sua escolha nas urnas não deveria ser divulgada: única e exclusivamente pra você sobreviver a este período enlouquecedor.

Lembra da primeira “pulga” que coloquei atrás da sua orelha? Pois bem, voltemos à ela sob o seguinte mote: Reza a lenda – e também a vida real e fatos reais – que todo político é safado, não presta, não possui focos e propostas concretas e, portanto, seu objetivo-mor dentro da política é sugar o povo através de impostos e salários exorbitantes. Logo, se o canto da sereia  é esse, concorda que não é nem um pouco racional fundamentar 3 ou 4 meses da sua vida em ideologias políticas que nem mesmo você confia, nem mesmo você acredita? Outra vez, convido-o a parar, respirar fundo e pensar. Não, eu não quero verdades, eu quero que você reflita, pondere e avalie, porque se tem uma coisa na qual eu acredito surtir efeito em qualquer ser humano do planeta é a vasta exploração do cérebro. Divirta-se na busca pelas respostas que nunca teremos. Se quiser, faça até uma pipoca pra acompanhar o espetáculo que é descobrir-se um completo comedor de mosca que só reage e age, mas não produz.

E agora que o momento se aproxima, se afaste dessa ideia estapafúrdia de reclamar do raio da política, incluindo candidatos, partidos, causas e demais fundamentalismos ao mesmo tempo em que a executa nas suas redes sociais, com seus amigos, com sua família ou até na padaria. Afinal de contas, domingo você precisa votar e tanto faz se você quer ou não porque diferente da “lenda urbana do voto secreto”, votar é obrigatório e implica numa série de punições àqueles que não o fazem. Não é? E será que não é este o X da questão? Opa! Finalmente cheguei onde queria. E espero, não exijo, que você chegue também.

Em suma: mesmo que vote no Garotinho eu seguirei sua amiga, filha, colega, conhecida, flerte, vizinha etc. E prazeirosamente escrevendo pra você.

Relato – alerta – relato

A cada dez vezes em que tento não fazer disso um catalizador da minha vida e sim um apanhado de pensamentos vagos e ideias românticas ou românicas do mundo, uma vai fugir da tentativa. Uma como essa, de agora.

É engraçado: você come o pão que o diabo amassou, se entope lenta e miseravelmente com a massa só que o capeta ainda quer te enfiar mais pão goela abaixo. Quer dizer, não é engraçado, é sujo, injusto, descabido. O perdão: que bonito, que poético. Perdoar é divino, o clichê é barato mas paga-se um preço caro quando a bondade é atrelada a ele. Desculpar, aceitar a retratação já é algo mais fácil e prático. Quase automático, um impulso involuntário quando sentimos que devemos esquecer tudo que nos fizeram de mal e seguir em frente.

Mas vai falar isso pra quem tomou tanta porrada assim na cara, amigo!
Vai lá e conta pra quem viveu no breu se é fácil dar reset na cabeça!

Não é. Não é mesmo. Relacionamentos abusivos são relacionamentos abusivos. Pessoas que não se importam com as pessoas, apenas com seu próprio umbigo. Há um monte delas por aí e eu, há um tempo atrás, tive o desprazer de agregar alguém assim pra minha vida. Muito chifre, muita mentira, muita maldade, muita agressão, muita loucura, muita maldade.O preço eu paguei com
sofridos 24 meses preciosos da minha vida. Não fiz outro carnê, claro. Não tinha emocional pra pagar nem mais um pingo de abusividade. E nem saúde também.

Se eu dissesse que tudo foi válido, aprendizado e toda aquela balela de crescimento pós-fracasso seria mentira porque ano passado mesmo eu dei de cara com o mesmo tipo de gente totalmente cheia de egoísmo e maldade por dentro. Nesse caso em específico eu pulei fora bem antes de 24 meses, felizmente.

Retomando o assunto central

Mesmo com o ponto final, o algoz ainda queria inserir vírgulas, coisa que não permiti, obviamente. Troquei o número de telefone, e-mail, redes sociais, tudo. Quem me conhece a fundo sabe que eu adoro uma vírgula no meio de poréns, mas quando eu taco o ponto final é ponto final e ponto. E ponto. Foi o que fiz pra voltar a viver, voltar a querer viver, voltar a querer confiar e, finalmente, confiar.

Beleza que eu fiz todo o trabalho de confiar e tomei um outro chifrinho mas isso foi galho fraco, com o perdão do trocadilho. O importante mesmo era restituir a capacidade de confiar e gostar de alguém outra vez. E isso foi devidamente reparado através do meu talento nato pra me remendar todinha, pedaço por pedaço. Ah sim, muitas pessoas queridas também pegaram linha e agulha e me deram uns pontinhos de salvação – e sou eternamente grata a cada uma delas por me amarem tanto assim.

Pois bem. Eu gosto de contar o tempo que as coisas boas duram. Coisa ruim até fico com o tempo mais ou menos gravado na cabeça, tipo essa porcaria que tô relatando, mas quase sempre eu priorizo e deixo vingar na memória o que foi bom. Por conta disso eu confesso que nem lembro mais se saí dessa há uns 5 ou 6 anos. Bom, a despeito disso de qualquer jeito, o ponto é que essa fruta podre reapareceu pra me pedir o tal do perdão do qual falei lá em cima. O perdão bíblico. A absolvição pra tudo de ruim já feito. O deitar com a cabeça tranquila no travesseiro. Foda, né?

E aí cabe o real objetivo ao dizer isso tudo pra quem vem aqui e lê essa joça. Here we go.

Primeiro ponto: CUIDADO com a INTERNET.

Eu conheci essa bosta pela internet, graças ao falecido Orkut. Da mesma forma, o infeliz descobriu meu número de telefone e fez o favor de me ligar. Alguém pode ter dado meu número? Sim, pode. Ele puxou algum registro meu em que deixei aberto meu contato? Sim, também é possível. Acontece que toda e qualquer alternativa foi viabilizada pela internet. A internet foi o meio para o fim, que era falar comigo. Hoje foi um celular, amanhã pode ser uma informação bem mais relevante. Por isso, atenção: CUIDADO COM TUDO QUE VOCÊ DEIXA DE RASTRO SEU NA INTERNET.

Segundo ponto: você não é obrigado a perdoar NINGUÉM.

Sai dessa. O perdão não vai mudar o que já aconteceu e ainda te coloca numa puta sinuca de bico: se você não perdoa, é cretino; Se perdoa, absolve quem pintou e bordou contigo – e fica de trouxa. Claro, você deve fazer o que melhor lhe couber mas não se sinta pressionado quando alguém joga um “Me perdoa por ter dado no meio da sua cara?” no seu colo. Faça o que quiser fazer. O que QUISER fazer. Só não faça algo apenas porque alguém disse que era o certo.

Terceiro ponto: não bata palmas pra MALUCO.

Além do perdão, a pessoa queria saber se ia ao Rock In Rio como se fosse um BFF. Veja bem até que ponto chega a falta de bom senso do ser humano. Tenha cautela com o check-in nas redes sociais. Lembro de alguém que foi sequestrado graças ao Foursquare mas vira e mexe posto algo denunciando onde estou, ignorando totalmente a informação. Pessoas abusivas usam da sua índole pra arrancar de você aquilo que elas querem. Fale que vai pra puta que pariu – como eu falei – mas não dê satisfação a qualquer um e evite fazer um check-in quando estiver sozinho (a) por aí.

Quarto ponto: faça uma LIMPA em todas as suas redes sociais.

Tem meio a ver com o que houve e também não, mas só pra ilustrar o que quero dizer. Por esses dias, uma quantidade razoável de pessoas com quem tenho a menor intimidade me perguntaram coisas muito particulares no Messenger do Facebook. As perguntas iam de “Ainda trabalha no Méier?” até “Você também está morando em BH?”. Ai eu saquei que tem gente MUITO de olho no que eu faço através do que posto, sendo que tava crente que só umas meia dúzia de gato pingado lê ou vê com o que publico. Ledo engano. E, voltando ao assunto-mor do post, eu recomendo a limpa porque descobri que não deixo meu telefone disponível em lugar nenhum, o que me faz concluir que alguém foi lá e deu o número. Ok, pode não ter sido isso, concordo. Mas também pode. E sabem o ditado – brega – que a inveja tem sono leve? Então, brega mas bem pertinente, ainda mais hoje em dia com tanta gente tan-tan da cabeça perdida por aí. Na verdade, eu tô pensando em fazer um outro perfil com bem menos que 684 pessoas -e também porque dá um trabalho ferrenho fazer uma limpa.

Quinto ponto: não aceite QUALQUER PESSOA nas suas redes sociais.

Crie um critério: amigos de escola, ex-colegas de trabalho, parentes, amigos da vida, amigos da faculdade. Quem você quer que tenha notícias de você? Faça essa pergunta a você mesmo e não aceite qualquer um que aparece absolutamente do nada. Nem todo mundo vai achar o máximo você batendo perninhas no Caribe. Ou aquela foto divina com seu boy ou girl magya. Faz uma limpa e restringe quem pode ver suas coisas. Likes e comentários não vão te deixar rico – e nem vivo se alguém surtar e se tornar um obcecado doentio por você. Drástico mas necessário.

Sexto ponto: não deixe que algo RUIM afete você.

Me deu tremedeira, dor de cabeça e vontade de vomitar ouvir uma voz tão hostil, apesar de ter vindo com ares de mansidão e até acompanhada de lágrimas. Mas passou, transcendi disso. Liguei pra Vivo e pedi pra bloquear todos os números com DDD 11, simples assim. Sim, você pode pedir coisas específicas desse tipo pra sua operadora quando precisar. Optei por não trocar o número porque não seria proveitoso, então foquei na solução que é essa e fim de papo. Não estou preocupada em não receber mais ligação de SP, até porque meus poucos amigos de lá me acham por outros meios. Me preocupa bem mais ter um psicopata atrás de mim e me ligando pra falar merda.

Enfim, fiz o que achei que devia fazer e seguirei meu baile. Não me afetou, só exigiu de mim providências práticas. E era isso que eu queria, porque apesar de parecer ser tão complicado fazer isso tudo que disse acima por uma gama de razões que a gente teima em sustentar, é muito importante zelar por você mesmo, sabe? E ninguém vai fazer isso por nós. É um exercício. Lembrando que você tem sua pessoa física e sua pessoa jurídica. Sua vida social não precisa ser necessariamente e totalmente pública, assim como a vida profissional pode vir a ser caso a sua área de atuação incline pra isso. No final, a proposta é que você entoe o seguinte mantra todos os dias: quem eu quero que se importe comigo e quem eu não quero?

Em tempos de caos urbano e tanta violência gratuita creio que o alerta seja muito válido – só não é pra desenvolver uma mania de perseguição e achar que todos os seres do planeta são psicopatas. Se eu não penso assim, por que você vai pensar?

Fica

Fica mais um pouco. Ou quem sabe muito. Mas vê se fica. Fica pro almoço, pro jantar. Fica pro lanche. Fica, vai. E fica agora, não amanhã. Fica antes também, que mal tem? Fica aqui, não lá. Lá não tem nada pra você. Fica porque aqui tem. Fica porque tem que ficar. Fica de pijamas, fica de meia. Fica na cama, sofá ou cadeira. Fica onde você quiser. Mas fica. Fica quieto, que é bom. Fica elétrico, que é ótimo. Fica eufórico, efusivo. Fica sereno, tranquilo. Fica calmo, bem leve. Fica pro jogo que começou. Fica pro filme que ainda nem rodou. Fica pra gargalhar, fica pra chorar. Fica pro rock pauleira. Fica pro sambinha da vitrola. Fica pra passar as horas. Fica pra dor, fica pro amor. Fica pra muito amor. Fica pra muita dor. Fica pros gritos, de prazer e de sofrer. Fica pra ser sacana. Fica pra ser criança. Fica pra pipoca, fica pra lavar a louça suja. Fica pra mais uma conversa. Fica pra mais um café. Ou dois. Ou sete. Fica pra ser insone, notívago. Fica pra reclamar. Fica pra elogiar. Fica pros galanteios. Fica pros bocejos. Fica pra serenidade. Fica pra sacanagem. Fica ué. Fica com fome, fica com sede. Fica sóbrio. Fica bêbado. Fica magro, fica gordo. Fica monossilábico. Fica tagarelando. Fica com ciúme, fica indiferente. Fica crente, fica descrente. Fica normal, fica estranho. Fica mudo, faz mímica. Ou escreve, e rima. Fica cansado, fica disposto. Fica entediado, ocioso. Fica brega, fica escroto. Fica fofo, carinhoso. Fica com raiva, furioso. Fica puto, até horroroso.

Só não fica pra se esvair,
cair,
ruir
e, depois,
ir.

Fica aqui, pra sorrir. Fica porque quer. Fica porque eu quero também.
Fica porque tá tudo, tudo bem – quando a gente se tem.

Maratona

Transborda a urgência. Tanta pressa para quê? Se descompasse, reduza a velocidade. Você não vê? O tempo vai escorrer por entre seus dedos de qualquer jeito. Feito ou refeito. Sem dó nem piedade. A clemência não vai pedir passagem, apenas a sua vontade. O músculo lateja, e a cabeça fraqueja. Temporize. Detenha-se. Talvez seja melhor viver pela metade.

Oras, que viagem. Não há combustível que calibre a minha voracidade. Quero tudo e quero agora. Sem ordem, nem prescrição. Surrado, destroçado, atordoado. Totalmente avariado. Há poucas rédeas nesse meu coração. Me deixe ser acelerado tal qual as pulsações do guerreiro, então.

Claro, como quiser. Vá de imediato ao súbito cansaço. A estafa fez o convite, seja nobre e aceite. Se deleite com o desgaste que promoves em si. Não é mais problema meu. E nem seu. Caso de saúde pública. Perdeu-se mais uma boa alma em meio a tanta amargura.

Não sou insano. Nem são. Quantas vezes mais terei que vislumbrar uma nova distância a alcançar? Para procurar sem achar? Sabe lá Deus o que já fiz pelo cessar. E fiz por fazer. Minhas preces não se fizeram valer. Não fujo de nada, nem de ninguém. Procuro refúgio dentro de mim? Talvez sim. No exausto vazio de uma corrida sem largada, sem chegada. Sem fim.

Subentendido

Você não sabe o que é. Você talvez nem entenda o que seja. Mas eu entendo. Entendo e vejo além do que poderia alguém ver. Não tenho medo, e nem coragem. Fico no meio termo? Talvez seja o meio-termo? Até que me provem o contrário, não há regras, não há padrão. Ponderar o provar nunca foi tão fabuloso. Ou não. Tenho um problema, encontro a solução? Claro que não. Esclarecer é mais difícil do que tirar o amargo da boca de um homem. Se é prático, de onde surge o obstáculo? Da sua cabeça, eu diria. Em pronto atendimento, pleno passatempo. Tudo tão vago, escasso. É o relógio da própria máquina a pulsar sem parar. Até que chega a hora marcada, o dia contado, a cena cortada. Videotape da sala de cinema privada. Sim, eu mandaria rodar todos os filmes se preciso fosse. E em câmera lenta, por favor. As melhores cenas, as melhores falas. Não, não diga nada. Só assista. Assista e resista. Quanta hipocrisia. É audácia, é bobagem pensar nas coisas que são apenas coisas. Seria melhor viver sem isso, admito. Mas, me diz você. E se as mudanças pedissem passagem? O que você faria? Se desesperaria? Sorriria? Aceitaria? Velha tentativa nova de me ludibriar. Eu fiz, eu fui, eu irei. Até onde posso, até onde quero, até onde vou. Não pode? Não quer? Não vai?  É, disso eu já sei.

Tereza na praça

Mais um isqueiro que não funciona. Por isso prefiro os palitos de fósforo, não tem erro e…
Opa! Tudo bom? Meu nome é Tereza, estava aqui reclamando dos isqueiros contemporâneos antes de você chegar. Deixe disso, estou bem em pé. Sente-se você, se quiser. Os bancos dessa praça vivem sujos mas hoje parecem limpos, aproveita. Na verdade, fico o dia inteiro sentada numa cadeira miserável de desconfortável, então é um favor que me faço ficar em pé olhando o movimento, as pessoas…

Ainda há pouco passou uma moça por aqui segurando um buquê lindo de rosas brancas, toda faceira. As maçãs do rostinho da bicha eram uma coisa de cheias. Que bela imagem da culpa, pensei. Romance? Não me venha com essa, né? Não existe isso não. Você acredita? Veja bem, você é novinha, cara de mocinha de 15 anos… Tem 27? Ah, aproveita essa juventude, filha. Não entre nessa de romance. Gosta de homem, certo? E qual é o seu tipo? Da sua idade ou mais velho? Branco ou preto? Gosta dos tímidos ou dos canalhas? Vai, me conta!

Como assim não tem preferência? Tem que ter, minha filha! Não é qualquer um que te serve. Homem sempre tem preferência, sabia? A gente pensa que não mas tem. Não é só ter peito e bunda mais que vale. O mercado tá cruel. Cruel. Você olha pro lado e só tem viado, olha pro outro e só tem borracha fraca. Não tá fácil. Bom, tudo bem não querer se expor, conversinha informal de praça… Você tá certa.

Ih, olha lá aquela ali. d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a  com aquele celular na mão, quase enfiando a cara na tela. Como vocês conseguem? Eu não entendo essa sua geração. A bicha nem pisca, tá vendo? A comida dela ali, esfriando no prato, e ela com o olho colado no telefone. Por isso tá magra, deve ficar nisso o dia todo. Aí quando o cara finalmente responde é só um Oi! e vocês vendem pra si como se fosse a coisa mais espetacular do mundo. Tô mentindo? Eu sei disso, vocês hoje em dia se contentam tudo com migalha de macho. Se bem que na minha época era a mesma merda, talvez pior. Levou no portão já era o amor da vida. Era porra nenhuma. Homem é tudo igual, espécie maldita. Só trazem desgraça pra vida da gente…

Olha! Olha! O paquerinha deve ter respondido, daqui tô vendo os dedos dela na tela. Inclusive, como é ruim escrever nessas merdas, viu? Conheço gente que corta as unhas pra mexer nessas porcarias e ficar no tal do Facebook e esse outro, o Zap. Não tenho nenhum dos dois, prefiro viver. Você tem, né? Ah, sabia. Eu não tenho e nem quero, internet é outro atraso de vida, só que esse é sem piroca. Vocês perdem muito tempo nessas porcarias e esquecem do mundo aqui fora…

Puta merda! Tá chorando! Vê se tem cabimento uma bichinha daquela ali, linda, chorando e largando a comida do prato. Cadê a mãe dessa garota pra dizer que homem é tudo filho da puta? Pra deixar isso pra lá e comer a comida toda? É foda… Vou até acender um cigarro. Que tristeza, viu? Isso acaba comigo, essas garotinhas cheias de charme virando uma Tereza de 40 e poucos anos por causa de um merdinha qualquer. Não, não tô exagerando, as moças de hoje são muito mais estúpidas que as da minha época. Antigamente, minha filha, a gente se valorizava, sabe? Não que também não tivesse muita bobinha porque tinha, mas a gente pensava bem antes de levar alguém em casa. Já na época da minha mãe era pá e pum: pegou na mão e já casava…

Levantou, e o prato ficou. Não tô dizendo? Aí chega em casa, a mãe pega a bicinha trancada no quarto e nem sabe o motivo. Você conta pra sua mãe quando alguém te parte o coração? Sério? Mas ela percebe como? Você fica chorando também igual aquela ali, né? É… reparando melhor você tem cara de que cai no choro por causa de homem mesmo… Não! Vai chorar? Eu falei merda? Toquei na ferida? Mas você estava tão tranquila aí me ouvindo, poxa. Tá sofrendo? Ah, não. Sofre não. Homem nenhum vale esse berreiro aí, acredita em mim. Enquanto você tá triste estão todos sorrindo, seja por causa de piranha, de dinheiro ou de babaquice. Homem é tudo babaca. Te falar que até tentei gostar de mulher depois de burra velha, só que mulher é o catiço. Única virtude do homem é essa, eles conseguem aturar a gente. Bem ou mal é isso mesmo. São tudo filho da puta? São. Mas tem um lá e outro cá que presta. Ou que pelo menos dá conta do recado, consegue cuidar da gente.

Mas não fica assim. É coisa antiga? E qual é o problema? E como que um cara não gosta de você? Carinha de garotinha, educada, toda cuidadinha… E como você sabe que ele não gosta? Tá nem aí pra você, é isso? Há anos? Pula fora disso, menina! Vai ficar se consumindo por causa de porcaria? Um mundo inteiro pra você ganhar, caceta. Faz isso com você, não. E não pode por quê? É casado? Bandido? Não trabalha? Tem outra? Fala, minha filha. FALA!

– Meu pai.

Da Janela

Olha só ela, lá da janela. Vagas noites de frio de uma vida por um fio. De esperança? Temperança. Ela é feita disso aí mesmo. Aquele franzir de testa não mente. Não há recomeços, tropeços. Apenas me escute e não relute. De rasos amores,  futuros e passados. Ultrapassados. De risos siderados, todos presos em eterno colapso. Tolos espaços que ela não mais preenchia. Lá da minha fresta não consigo ver ninguém tão na dela, e tão ela. Na janela. Fechada ou aberta, sei que lá está ela.

Então me diz o que essa moça tem. Ninguém sabe, nem eu também. Sei da janela, minha fresta, e dela. Das posses, passos e traços mal traçados eu não tenho ideia. E talvez nem ela.  E assim as coisas passam e ela fica. Na janela, imponente que só ela. Perdida no vai e vem que embalam as esquinas. Noturnas. Soturnas. Iguais. Diferentes. Vai ver que se enche de um vazio que não preenche. E enche.

Olha só ela, lá da janela. Contida, sentida. Ressentida. Foi mágoa, penso assim. O olhar perdido denuncia a verdade do que se passou para além da janela. Da janela dela. E eu sigo na fresta. É o que me resta. Daqui eu olho pra tudo que não vejo. Me esqueço do que não se completa, inebria. E desapareço no meio de tanta teoria. Que agonia.

E como se enquadra bem o mal que isso leva e traz. Dá e não passa. Clave de Sol desafinada. Desatinada. Sofro daqui que ela nem sabe, desconfia. Ela nem me vê, nem me mira. Pobre de mim, perdido na minha própria fantasia e sem ninguém pra me achar. Pelo menos ninguém que eu queria. Porque eu só queria ela, mesmo que fosse lá da janela. E queria ela me quisesse também. Tão bem.

Tá certo, decreto que não sei o que faço, e não sei se consigo me fazer nela. A companhia da fresta, a ausência da paz que se desfaz em cada olhar pra ela. Por ela. Da janela.  Madeira, coração e moldura. Envergou-se a loucura. Por ela. Pra ela. Lá da janela.

Breve Conto do Mar

Indo e vindo, vindo e indo. Não era gostoso de ver como o mar sacudia, ele dizia. E eu atônita, parada, nem piscava. Só olhava pra ele. Pra ele e pro mar. Não tinha saída, e mesmo que eu tivesse juro que não queria. Toda jura é mentira mal dita. E maldita. Clamei conforto em dois abraços, um só me acalentou. O primeiro me pareceu caridade e o segundo sim, foi de verdade. Não quis saber nem por um segundo se teríamos mais segundos assim. Quis porque quis, pelo menos pra mim.

E até então tudo era maresia. Uma levada gostosa que gostava do que nos fazia. E o mar, pra lá e pra cá, mal sabia que éramos poeira num tempo de pouca poesia. No vento gelado se fez o timbre errado da voz que não calava, e errava. E eu, a voz embargada que não se soltava, só sufocava. Não se engasga agora com essas besteiras, engole a seco esse desinteresse, eu me dizia. E repetia, e me esvaía. E caía em contradição. De novo? Hoje não.

E ele nem sabia que eu não estava mais ali, zarpei sem âncora, sem prumo e sem rumo. Do soltar das mãos pro cair das lamúrias. Uma atrás da outra frente ao mar que ia e vinha. Fui pra longe do que eu queria. O corpo, sim, permanecia. A mente não, não mais. Aconteceu, e essa coisa de se cansar do que cansa acontece e a gente nem direito percebe.

Desiste, já fui embora desse barco furado. Não há tripulação, não há nada. Só eu e o mar. Pra lá e pra cá. Mas se olho pro lado e ainda o tenho, como vejo a onda quebrar na rebentação? É, tem jeito não. Estou à deriva, sem garantias. E ele, posto em terra firme, me pedia que voltasse pra essa terra que avista e não vejo, ele é que via.

Visão tornou-se turva, perdi a noção. Não sou capitã dessa viagem e nada levo, nem bagagem. Que o céu desse mês me absolva de mais um mergulho trágico. Batalha Naval sem oponente, apenas o coração combatente. Não me segura, não há segurança aqui, assim disse. E solta, mas de vez. Voz e vão. Sim e não. Exaustão.

Agora vai, e vê se não mais fica. Logo menos me aprumo em outra pedra e você pega nova brisa. Assim é a vida, não desanima e se anima pra acompanhar essa rotina de pescador que solta o peixe e conserva a rede. Meu atlântico de desenganos vai me deixar pacífica nesse mar de tanto faz. Pra você a sereia já não canta mais, rapaz.