Dilúvio

Choveu.
Lá fora, hoje. Aqui, faz tempo.

Cada gota é um oceano.
Aqui, sempre. Lá fora, menos.

O barulho acalenta.
A mente, tensa. O corpo, denso.

Céu se fecha.
O raio vem. E dói, meu bem.

A água lava.
O peito, afoga. O olho, deságua.

Transbordei.

Nada mais passa.

De tudo que eu dei.
De tudo que eu quis.
De tudo que eu fiz.
De tudo que eu vi.

Nada mais sei.

De ontem

O mundo está cheio de Gregórios e Clarices. De vidas reveladas, não veladas. A gente mesmo cai nesse buraco e fica por lá. E eu me incluo. A plateia nos engole todo santo dia. Vitrines. Mas de quem? Quem são essas pessoas? Vai saber, já que nem nós sabemos.

É a permuta diária. Um like que não vale uma noite mal dormida de calor, nem uma fila enorme de banco. Trocamos. Permuta, como disse. E ok. Livre arbítrio. Sociedade conectada. Ok. Entubemos.

Mas aí o cara fez o texto e caem de pau. Eu não gosto dele. E nem dela. Foi marketing? Sim. Foi bonito? Sim. E ponto. Mas a plateia desgostou.

O cara expôs a Clarice.
O cara traiu e agora se arrependeu.
O cara é machista.
O cara. O cara. Ah, cara!

Se eu tenho uma coluna e me deixam escrever qualquer merda nela é claro que vou escrever qualquer merda. Exposição por exposição que se foda. Ninguém quer saber. É assim que as coisas são, quer você queira ou não.

Ele nem pensou nela. E deveria? É ele. É dele. Sentimento dele. Externou. Eu não estou fazendo isso agora? É isso. E só isso. E só.

Piora porque era uma declaração de amor. Um negócio mais escasso que sei lá o que, sinto eu. Ninguém quer mais nada além de caos, vejo eu. E agora tudo é motivo pra reclamar, digo eu.

Que tribunal maldito. E a gente alimenta esse demônio o tempo todo.
Perdemos a mão, e mais um monte de coisas.

Coisas que a plateia não vai trazer de volta. A plateia só aprecia, joga o milho.
E nós nos bicamos até sangrarmos. Quando se vê, nada sobra e nem se renova.

Só se perde.

A vida do Gregório continua. A da Clarice também. E a nossa, idem.
Mas que vida é essa mesmo que estamos levando?

É a vida que está nos levando na velocidade de um feed recente pra lugar nenhum.

 

 

Quando a Conta Não Bate

Soma tudo e subtrai. Depois divide e multiplica. Mas a conta não bate, não fecha. O que falta? Desaprendeu a fazer as operações matemáticas? Caiu em desuso o uso das fórmulas a seu favor? Que pavor! Você realmente não se lembra mais da álgebra. E talvez nem ela lembre de você também.

Calma. Respira fundo e recomeça. De novo? Ah, não importa. Pensa que a conta não bate, não fecha. E ela tem que fechar, tem que. Faça! Não? Deu errado? Outra vez? Com essa, já são três. Espera e não se desespera. Vai bater.

Troca o lápis. É isso. A ponta gasta pode prejudicar o desenrolar do serviço. Pega um novo, de ponta fina, mais alinhado com o seu traço, com essa sua caligrafia. Trocou? Melhorou? Então, novamente. Fecha e… Mas não pode ser!

Os produtos estão corretos? É isso mesmo? Não falta nada? Subiu quantas casas? E os zeros? Pegou emprestado? Abaixa o dois, vai dar um. Olha isso. Tá vendo? Não tá? Como assim? Olhe bem. E agora? E agora nada. Não bate. Não fecha. Que merda!

Devagar, sem pressa. Pega caneta, é o que resta. Sem rascunhos, vai direto. Faz, refaz. Vai que dá certo? Arma a conta, usa a cabeça e não enlouqueça. Troca a ordem dos fatores. Multiplica tudo e divide. Depois soma e subtrai. E aí? Tanto faz?

É… o resultado é o mesmo, e exato:
a ordem de nenhum fato altera o teu ponto fraco.

Não pode ser.

A vida não pode ser as camisas que você não quer lavar pra conservar um cheiro qualquer, que lembra uma coisa qualquer. Não pode ser nem homem e nem mulher. Não pode ser o mar de remorso que você carrega diariamente pelos equívocos que cometeu. Não pode ser uma ferida que sempre doeu. A vida não pode ser pautada no meio-termo, entre ternos e termos. A vida não pode ser apática, nem rasa ou superficial. A vida deve ser suja, faceira, intrépida e arteira. A vida não pode ser medíocre, você não pode ser medíocre. A vida não pode ser a buzina do carro ao lado, nem a fila certa no banco errado. A vida não pode ser um beijo de novela. A vida tem que ser aquele beijo de rua sem retoques, sem arte. O beijo que traduz a vontade. A vida pode ser uma viagem feita sem sair do lugar. Pode ser um lugar que você nunca foi, mas sente-se como se estivesse por lá. A vida não é um diploma, nem um diploma é a vida. A vida não pode ser uma obrigação. A vida é prazer, é luxúria, é tesão. A vida não pode ser desânimo, descontentamento. A vida não pode ser um eterno lamento. A vida pode ser o que alguém deseja pra você, a vida pode ser as idas e vindas de um bem-querer. A vida não pode ser a letra miúda da embalagem, nem as informações sobre calorias. A vida pode ser prática, e não apenas teoria. A vida não pode ser as contas que chegam no mês, nem o dinheiro que se esvai de uma só vez. Pode ser medo, mas precisa ser ação. A vida não pode ideologia, menos ainda utopia. A vida não pode ser a manchete do jornal. Não pode ser saudade, mas pode ter lembrança. A vida pode ser o choro sincero do adulto, ou o riso inocente da criança.

Então para. E repara. E realiza.
A vida não é só furacão. A vida também é brisa.

Avesso.

Era pra ser uma coisa, bonita até. Foi outra. Era pra dar certo, uma aposta a dois. Deu errado, e cada um foi pro seu lado.

Ela pegou a avenida da esquerda, aquela que cruzava com frustrações e mágoas, bem de esquina pro vazio e pro descaso. Ele, desnorteado, entrou num beco sem saída, e se jogou no colo da primeira rapariga, afago de um breve meio-dia, pra depois voltar à melancolia. Ela queria porque queria. Nem mesmo a razão direito ela sabia. Justificava as mãos dadas como algo meticulosamente planejado. Estratégias daquele tal destino selado. Ele queria soltar e se soltar. Ir por aí e ver no que dá, o encanto deu o que tinha que dar.

Ela disfarçou o desinteresse, ele negou verdades. Que mal há em deixar tudo do jeito que está? Que bem há em estar por estar? Soluções na contramão do afeto, do bem querer. Ela não quer mais saber. E ele sequer já quis. Não tem jeito: quando chega, o dissabor assola. Não há alegria que perdure, nem desesperança que acabe. O gosto amargo do quase não é insípido.

E arde.

“Não é a vida como está…

e sim as coisas como são.”

E daí que eu resolvi correr. Sim, a Marcele resolveu correr. A viciada em Coca-Cola e amiga inseparável da preguiça, em suma, está correndo. Mas, ao contrário do pensamento e questionamento de muitos, o ato em si vai além de comprar um tênis e ir de um canto a outro. Vai além de postar uma gracinha ali e outra acolá. Vai além até de mim, para ser sincera.

Sem querer – e sem perceber, coisas acontecem com a gente. Comigo foram muitas, sendo que todas elas convergiam para uma palavrinha totalmente comum em qualquer canto do mundo: depressão. Você não quer fazer nada, você não quer entender nada, você nem mesmo se quer. E isso toma conta das suas horas e se converte em hábitos, em comodismos. Quando você percebe, está infeliz, na merda. E parado exatamente no mesmo lugar.

Daí por diante é ladeira abaixo. Comparamos nossas vidas com a vida dos outros – que, aparentemente, são as pessoas mais felizes do planeta – qualquer crítica ou pensamento divergente nos levam a um balde cheio de lágrimas e nada, absolutamente nada mais faz sentido. A maldade, a ganância, o egoísmo e a individualidade do mundo me deixaram assim, meio amarga de uns tempos pra cá. E triste. Bem triste.

Mas nada disso era óbvio, esclarecido. Pra mim, tratava-se apenas da resultante sobre as escolhas que eu fiz e eu devia encarar tudo com naturalidade. Erro e acerto. Acerto e erro. Equívocos. Uns, remediados. Outros, nem tanto. E, no meio de tanta confusão e incerteza, eu deixei que alguém entrasse pra somar. Alguém que, na verdade, veio atrás de cura. A cura pro mal que compartilhávamos, ela ciente disso e eu, nem um pouco.

E foi curando essa pessoa que eu encontrei meu antídoto. Vi minhas palavras amigas se refletindo no que eu também deveria saber. E fazer. Num momento, veio um estalo. E eu quis fazer alguma coisa por mim que não envolvesse, necessariamente, meu baleadíssimo coração com um monte de “poréns”, os problemas familiares e menos ainda um currículo profissional a zelar. Algo que emanasse positividade em mim, a mesma que passei a ver na pessoa em questão. Algo que fizesse bem e me desafiasse enquanto ser humano, não formadora de opinião de ninguém. Assim, decidi correr. Assim, optei pela novidade que a mesmice não traz de jeito algum – e que blindaria a depressão de uma só vez.

Antes de entender, julguei, claro. Via o ato de correr como uma “modinha”. Até que conheci algumas histórias embasadas na atividade em si. E crio agora mais uma, a minha. Superação do corpo e cura da mente. Eu sou novata no assunto mas posso dizer com precisão que sinto-me bem melhor, animada, abastecida pra vida. A endorfina transforma qualquer ideia em ação.

Não, eu não estou correndo pra “ficar gostosa” como um imbecil veio me sondar. Eu sou gostosa. Mesmo que não tenha essas coxas de tora ou glúteos de aço que figuram o meio, eu sou. Todo mundo é, acredito eu. Do meu jeitinho, sou. E você também. Minha “gostosura”, o charme da Marcele nunca esteve na forma e sim no conteúdo. Se vou tornear, emagrecer, chapar ou sei lá o quê, bem pouco importa. Isso tem bem mais a ver com meus 27 anos e uma qualidade de vida péssima. Uma imunidade de bosta. Uma resistência física medíocre. Amor próprio e equilíbrio, diria. O mundo não vai me amar caso eu esteja em pedaços. Vai? Duvido.

A vida é breve. Hoje mesmo meu vizinho foi pegar a pipa dos moleques num fio de alta tensão e morreu. Do nada. E o que quero dizer com isso? Simples: o fim, propriamente dito, não prenuncia o momento de chegar. Ele chega e ponto. E eu não sei de uma série de coisas, ainda, mas uma das poucas coisas firmes no meu pensamento é que eu não quero morrer por dentro, me esfarelar. Logo, enquanto o fim real não chega, prefiro repelir o fim fantasioso, o fim que fica e não vai embora enquanto não sobra nada de você e assim impede de tantas coisas boas. A derrota antes mesmo que a batalha seja decretada: não queira isso pra si.

Enfim, é só mais um post pessoal (GIGANTE) que nem gosto muito de fazer mas achei pertinente pro momento. Estou me preparando pra encarar algo que eu jurei de pés juntinhos jamais fazer. E sei que não será fácil porque nada, absolutamente nada na minha vida é ou foi  fácil, mero sopro no ar, dádiva que cai do céu. Porém, a dificuldade é a menor das preocupações quando há vontade. E há muita, muita vontade em fazer as coisas de um jeito mais eficaz do que reclamar da vida, de tudo – e (quase) todos.

Bom, e só pra fechar o link do título, “Meninos e Meninas” do Legião Urbana. Uma música que tem ecoado na minha cabeça nos últimos dias e que faz total, total sentido com o presente momento e as coisas que, correndo ou não, querendo ou não, a gente acaba deixando para trás a fim de seguirmos em frente, sempre em frente. Afinal, não há mais tempo ALGUM a perder.