Falemos de Portishead

Dias desses, entrei numa louca busca por souvenirs musicais, até que me lembraram de um trio britânico, demasiadamente replicado aos ouvidos numa época  confusa da vida e que trouxe considerável alento pra minha mente.

Pois bem, apresento-lhes o Portishead.

O gênero trip-hop, que deu palco para bandas como Massive Attack e o músico Tricky, trouxe à cena musical dos anos 90 o excepcional Portishead, que introduziram às minhas playlists do pré-histórico Winamp há uns 8 ou 7 anos da seguinte forma: “Marcele, isso aqui é música para namorar pelado.” Olha… e é mesmo. Das letras cheias de possessão e melancolia até ao timbre de voz assustadoramente sedutor da vocal Beth Gibbons – uma espécie de Céu britânica, na minha humilde e pouco técnica opinião – é incontestável a sonoridade apaixonante e erótica do trio britânico.

E a coisa começou sem pretensão alguma. O objetivo era apenas pagar contas com dignidade. Lançaram o primeiro trabalho em 1995, o maravilhoso “Dummy”, que de tão bom tornou-se um sucesso na época, mesmo sem a intenção de tal. Três anos depois e ainda pegando carona na boníssima impressão deixada pelo primeiro álbum, veio “Portishead”, trabalho homônimo do trio – tanto no título como na qualidade similar ao primeiro. Esse segundo disco deu ao grupo certa estabilidade frente ao gênero, mantendo o Portishead como membro da Tríplice Aliança do Trip Hop.

Mas o “pulo do gato” da banda não está nos dois ótimos discos que citei e sim no hiato – decretado de 1999 até 2005 – para que os três membros do grupo pudessem dedicar-se a projetos paralelos e, consequentemente, evitar uma estafa que seria fatídica à qualidade sonora da banda, tendo em vista a já famosa ascensão do pop em suas mais variadas nuances.

E mesmo com o tempo refletindo-se no timbre vocal de Gibbons, fato que não permite agudos tão potentes como os dos anos 90 mas que traz ao legado musical da banda mais destaque ao instrumental e espetaculares arranjos produzidos por Geoff Barrow e Adrian Utley, fiéis escudeiros de Gibbons, em 2007 se reúnem e lançam “Third”, trabalho alinhado e plenamente conectado com a sonoridade primária do trio, talvez um pouco mais ousado – incluindo uma improvável e excelente pitada brasileira na faixa “Silence”, onde o ilustre desconhecido Cláudio Campos, professor de capoeira desde 2003 em Bristol, cidade-berço do trio, declama, em português, a seguinte mensagem:

“Esteja alerta para a regra dos três.
O que você dá retornará para você.
Essa lição você tem que aprender.
Você só ganha o que você merece.”

No Portishead nunca existiu o habitual “encher de linguiça” que toma conta de boa parte das bandas atuais e me incomoda bastante quando torna-se uma tentativa medíocre de repaginar um artista que se destacou por uma sonoridade x mas resolve se jogar em outra completamente contrária ao que lhe faz jus, e isso apenas pra obter status quantitativo em meio aos “caça niqueis” do momento, diga-se de passagem.

 Apesar de não lançar nada novo desde 2007, nunca declararam o fim da banda – o que é ótimo e bem mais sincero que essas presepadas de hoje em que bandas acabam, fazem turnê de despedida e voltam tão logo acabe o dinheiro. Preciso citar Los Hermanos, Forfun,  e mais uma pregada de bandas gringas? Não, né?

Bom, deixei aí pra quem lê esta bagaça a melhor maneira de conhecer o trio: “Roseland NYC Live”, álbum gravado com orquestra e o escambau. Prato cheio pra quem gosta de música e está meio enjoado das coisas que existem hoje em dia.

Ps: “All Mine” é a minha favorita por motivos de – tem que ouvir pra saber.

Pra resumir: Portishead é a tal da sofrência da minha época (velhice detected)
– só que essa, amigo, é um tesão de boa!

“SABER/FAZER/TER” – QUÊ?

Na vitrola –  “Maybe Tomorrow” Stereophonics

Quando voltei a postar neste humilde blog, juro que a intenção era escrever sobre o que penso do mundo, não de mim. Eu já fiz isso tantas vezes que hoje reconheço ter pecado pelo excesso em tanta exposição emocional – e literária. Contudo, entretanto, todavia… é, farei exatamente isso neste post pelos motivos que se seguem – e não necessariamente em ordem de relevância.

– O que vou escrever pode ser útil pra outras pessoas;
– O post valoriza a minha linha de pensamento;
– Porque eu quero, ué.

Beleza, mea culpa feita, seguirei meu baile.

Por esses dias eu me senti muito de saco cheio de tudo, de pessoas a lugares; De situações a condições; De opções a conduções. E esse grau de descontentamento foi tão gritante que eu me tornei a criatura mais indolente e procrastinadora que eu poderia ser, sem culpa alguma, menos ainda reflexão. Bom, ao chorar minhas pitangas pra única pessoa que consegue me entreter de alguma forma 90% agradável – e adorável,  eu até que senti certo conforto, alívio. Bateu aquele estalo traiçoeiro de “Opa! Não tô maluca e não é exclusividade minha tal insatisfação geral. Menos Mal”. E traiçoeiro por quê? Porque é nele que mora o perigo.

Saber que alguém vê (ou passa pelas) as mesmas coisas que você vai ajudar, não solucionar.
(E a gente, erroneamente, sempre acredita que ajuda e conforto nos libertam de qualquer demônio cotidiano)

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Tamo junto, mano Logan

Independente da constatação acima, depois de superar temporariamente a fase “Ó vida, ó azar”, parti para o que realmente interessa nessa vida de merda: solução. E o que meu cérebro ofereceu? Só ideia de bosta, claro.

– Se pagar 75% de imposto numa casquinha que me tira do bolso R$2,00 me revolta tanto, então morar no exterior é a solução;
– Se eu estou desmotivada na vida pós-faculdade, então me entupir de atividades legais e fofas é a solução;
– Se eu, definitivamente, não gosto do meu bairro, então a solução é morar num “meia-água”, comer comida congelada e andar toda amarrotada por aí;
– Se eu ando tão ansiosa e agoniada, então a solução é encher o bucho de porcarias industriais ;
– Se a insônia está me roendo os ossos, então a solução é assistir um filminho maravilhoso 3am;
– Se tem trabalho até 2056, então a solução é praticar o bom e velho home-office;
– Se … (ah, isso eu vou deixar em off porque não cabe no poema expor).

Como disse, só ideia bosta.
“Mas, pera: Marcele, não são ideias tão bostas assim. Para de exagerar, criatura!”
São sim, filhão. E vou dizer o porquê (e daqui pra frente vem a primeira parte que acredito servir pra quem vai ler isso)

Após uma senhora semana caótica e confusa, absolutamente do nada o esclarecimento e o bom senso deram o ar da graça e eu cheguei à seguinte conclusão: POUCO IMPORTA

– se na Suíça eu seria mais feliz porque lá tem menos impostos,
– se fazer dança, academia, auto-escola, pós-graduação e curso de massoterapia manterá minha mente e meu corpo mais ativos,
– se, na semana que vem, meu chefe aumentou meu salário e me mudarei pra Botafogo, de frente pra Enseada,
– se comer é condição humana e que se dane eu vou comer muito mesmo,
– se eu tô indo dormir 23h e sem horário de verão em vigor,
– se o home-office é meu pastor e nada me faltará;
– se  (continua não cabendo no poema explicitar essa parte da confusão mental).

Pouco importa porque o problema não está no imposto, na indolência e preguiça, no bolso, no bairro, na gordice, na insônia, no jeito workaholic de ser e na paradinha que não quero explicitar. O problema está unica e exclusivamente em MIM, e eu vou continuar nessa bagaça de vibe ruim e insatisfeita em qualquer lugar do mundo, sob qualquer condição, exercendo qualquer tarefa porque o ato de reclamar me impede de agir e trabalhar com a realidade que tenho, não com aquela que eu quero.

E o que eu quero, Mário Alberto?

Pois é, aí é que tá. Eu não sei. Atualmente, a única coisa que me remete a alguma certeza não tá certa – sad but true, além de confuso demais. O que percebo (e aí vem outra parte pertinente pra quem lê) é que nos sabotamos o tempo inteiro. Procuramos desculpas pra tudo, poréns pra tudo, razões pra tudo. Vai ver que não existe nenhuma razão realmente aparente pra tanto incômodo geral da minha parte – o que é pouco provável. Ou vai ver é só uma fase e há de passar; Ou então eu tô sendo completamente imbecil e perdendo a oportunidade de repensar numa série de coisas que surtirão considerável efeito futuro só porque estou preocupada com… o futuro.

É muita redundância pra uma pessoa só, Brasil!
(E pensar nisso tudo não me levará a lugar nenhum, já sei)

Como eu fiquei com a última opção, digo que não é fácil se admitir trouxa e ignorante, mas necessário. Parênteses : quanto mais a gente se enxerga capaz de algo, menos potencializamos nossas energias naquilo. A gente não se dedica, só executa –  e a cobrança interna é aterrorizante. Agora, vá e faça algo que nunca imaginou fazer. É um outro tipo de tesão. É outra sensação. É Copa do Mundo com mata-mata. É lindo! É TETRA!

Disseram-me verdades nesta sexta-feira que impactaram meu id, ego e  superego. Não doeu mas machucou. Criou aquela casquinha, sabe? E o desafio daqui pra frente é deixar a casca cumprir seu papel e se segurar pra não arrancá-la antes da hora.
(lá vem o terceiro, derradeiro e último conselho neste post – e o melhor, de longe)

“Saber esperar e saber agir” é a ordem, porém não é maior que:
“Aprenda para saber, não só para ter.”

Parênteses: o petardo filosófico acima foi dito pela minha maravilhosa cabeleireira e amiga, Verônica, a quem devo muitos lampejos de inteligência e racionalidade nos últimos anos.

Não vou mentir e dizer que estou me sentindo tal qual uma libélula saltitante e que tudo melhorou após a reflexão porque, é claro, ainda me sinto muito de saco cheio. A diferença é que, no saco, tem o descontentamento, a inconstância e a preocupação (e sempre vai ter), mas também tem um bom punhado de astúcia pra me aproveitar do que eu tenho e esquecer (pelo menos até que eu perca o controle mental novamente) do que eu não tenho, AINDA.

Solidão em troca de política? Dispenso.

É sempre assim: chega o período eleitoral e junto com ele aquela vontade absurda de convencer todas as pessoas do mundo a pensarem como você. Ou, pelo menos, a entenderem suas escolhas. Não é um tanto quanto pretensioso demais? Bom, me parece que sim. E não digo isso pela questão partidária da coisa e menos ainda por apreciar o já famoso “ficar em cima do muro”, digo pelo simples fato de que perdemos tempo, energias e até o bom humor numa dessas. Amizades são desfeitas, opiniões são desrespeitadas. E tudo isso por causa de política? E tudo isso pra que a sua ideia do que é correto prevaleça? Pare, respire fundo e pense: Será que você sabe mesmo o que faz sentido na política? Será que medir amizades pelo pensamento político do seu coleguinha é coerente com aquilo que o tal do “ser amigo” deve significar?

Pois é, enquanto você pensa aí eu seguirei com meu texto. Ok?

Eu concordo em gênero, número e grau que política é um tema recorrente e de extrema relevância na nossa sociedade, viver em democracia, em síntese, é isso. Porém discordo completamente que essa mesma política seja responsável por homéricas discussões estúpidas e demais malefícios ao nosso convívio. E aí você vai dizer que não é discutir, é expressar o seu ponto de vista, certo? E aí, caro leitor, eu vou dizer para você o seguinte: ponto de vista não é sinônimo de verdade absoluta. É bonito, poético e emblemático que tantas pessoas se dediquem a uma causa, seja ela qual for, contudo, é menos bonito, poético e emblemático a possibilidade do meu ponto de vista ser amplamente diferente do seu? Sim, deixei outro questionamento pra você refletir. De nada.

Óbvio que algumas coisas devem ser discutidas, desde aborto até discriminação racial, só que tais temas não são, necessariamente, atrelados à política. Ainda que apareçam casos alarmantes como, por exemplo, as recentes declarações do presidenciável Levy Fidelix, isto não quer dizer que as problemáticas da sociedade giram em torno dos políticos. Eles são, de fato, formadores de opinião, mas a coisa adotou proporções que ultrapassam as siglas partidárias, compreende? Não é culpa da Dilma ou do Aécio que o seu vizinho agride a esposa pela noite. Não é culpa do PT ou do PSDB que o termo macaco seja proferido aos negros como se fosse um bom dia. Não é culpa, e aí não é MESMO, de nenhum partido que você ainda não entenda que não somos reis e rainhas da razão, e sim súditos dedicados das dúvidas e questionamentos. Prova disso é que eu deixei uns dois soltos no texto pra reflexão e não tenho nenhuma verdade reconhecida em cartório para oferecer, não.

E, só pra lembrar: o voto deveria ser secreto. Então, no melhor dos mundos, cada um escolheria quem melhor lhe agradasse e pronto, fim de papo. Você não teria desperdiçado sei-lá-quantos caracteres no seu Facebook, desfeito sei-lá-quantas amizades e tido sei-lá-quantas dores de cabeça desde que o período eleitoral começou. Ao analisar o quão chato todo mundo se torna quando há eleições, consigo entender a razão pela qual a sua escolha nas urnas não deveria ser divulgada: única e exclusivamente pra você sobreviver a este período enlouquecedor.

Lembra da primeira “pulga” que coloquei atrás da sua orelha? Pois bem, voltemos à ela sob o seguinte mote: Reza a lenda – e também a vida real e fatos reais – que todo político é safado, não presta, não possui focos e propostas concretas e, portanto, seu objetivo-mor dentro da política é sugar o povo através de impostos e salários exorbitantes. Logo, se o canto da sereia  é esse, concorda que não é nem um pouco racional fundamentar 3 ou 4 meses da sua vida em ideologias políticas que nem mesmo você confia, nem mesmo você acredita? Outra vez, convido-o a parar, respirar fundo e pensar. Não, eu não quero verdades, eu quero que você reflita, pondere e avalie, porque se tem uma coisa na qual eu acredito surtir efeito em qualquer ser humano do planeta é a vasta exploração do cérebro. Divirta-se na busca pelas respostas que nunca teremos. Se quiser, faça até uma pipoca pra acompanhar o espetáculo que é descobrir-se um completo comedor de mosca que só reage e age, mas não produz.

E agora que o momento se aproxima, se afaste dessa ideia estapafúrdia de reclamar do raio da política, incluindo candidatos, partidos, causas e demais fundamentalismos ao mesmo tempo em que a executa nas suas redes sociais, com seus amigos, com sua família ou até na padaria. Afinal de contas, domingo você precisa votar e tanto faz se você quer ou não porque diferente da “lenda urbana do voto secreto”, votar é obrigatório e implica numa série de punições àqueles que não o fazem. Não é? E será que não é este o X da questão? Opa! Finalmente cheguei onde queria. E espero, não exijo, que você chegue também.

Em suma: mesmo que vote no Garotinho eu seguirei sua amiga, filha, colega, conhecida, flerte, vizinha etc. E prazeirosamente escrevendo pra você.

Sobre pontes de argila e pontes de barro.

Prólogo do post – Precisava muito dormir e o sono deu lugar ao ombro amigo e uma interessante reflexão que merece registro. Parafraseando: “Marcele é uma psicóloga informal diferente. Ela é socrática. Ela fala com a gente.”

Relacionamentos, de qualquer espécie, estabelecem vínculos – amigos, parentes, conhecidos, músicas, objetos, roupas, hábitos, datas etc. Enfim, vínculos. Você conhece as pessoas e se afeiçoa a elas. Algo normal e aceitável, ninguém aqui é feito de lata. E o mesmo se segue para as informações e referências que você atrela pra sua vida a partir de um relacionamento.

No delírio de hoje, chamarei os tais vínculos de PONTES.

Seus amigos. Vocês frequentam os mesmos lugares. Eles conhecem seus pais. Se vocês brigam, é do senso comum que se afastem; Se os seus pais gostam deles, vão estranhar se você parar de falar com eles. Pontes de argila versus Pontes de barro.

Um namoro. Você compartilha a sua vida com alguém. Você compartilha outros relacionamentos de sua estima com alguém. Se o namoro acaba, acaba também a parceria; As pessoas que foram atreladas a você precisam se acostumar e aceitar a sua ausência – ou se adaptar a mudança; Pontes de argila versus Pontes de barro.

No dicionário Marcelístico de Delírios consta que:

– Pontes de Argila: são aqueles vínculos que você MANTÉM por inúmeras razões e que convergem para o seu próprio bem-estar dentro do relacionamento. Novos amigos, novas referências, um livro emprestado, uma roupa que esqueceram na sua casa, um lugar e por aí vai. Tudo isso você conserva na sua vida pelo TEMPO QUE QUISER, do jeito que quiser, pelos poréns que quiser.

– Pontes de barro: são aqueles vínculos que você DESFAZ ou MODIFICA por inúmeras razões e que convergem para o seu próprio bem-estar ao FINAL de um relacionamento e INÍCIO DE NOVO CICLO, a tal virada de página.

Não tem jeito: há momentos na vida em que precisamos nos desprender das nossas pontes de argila e dar lugar às pontes de barro, por mais que pessoas e coisas boas tenham permeado a relação. E você nem sempre vai perceber isso do jeito mais sutil. Pode ser através de uma decepção, de um comportamento egoísta inesperado ou até de um acontecimento drástico, o meio pouco importa porque o diferencial estará no fim – e o fim é e sempre será você.

Quando um relacionamento fecha seu ciclo e você mantém as pontes de argila no seu caminho – que já se dá por novo mediante o término – elas se tornam o seu pior inimigo. Elas são a falsa esperança de que algo ainda há de somar; São a última carta na manga para uma aposta fajuta; São uma ilusão que você condensa nos seus dias como garantia de oportunidade para reviver algo que já acabou, tanto pra você como pro outro lado.

Por isso que devem existir as pontes de barro, que nada mais são que a sua predisposição a adaptar tudo que você agregou para si à realidade que implica o término do relacionamento, seja lá da forma que for. Boa parte de tudo que você mantém já não é mais um problema seu, já não merece a sua preocupação e consideração. Certamente terá alguém que se ocupará com essas coisas – e você não precisa sentir-se preso a elas, como se devesse eterna estima. Quando você traz pro seu novo caminho as pontes de argila aprende a lidar melhor com tudo – de situações a pessoas – e segue em frente com menos culpa e menos vínculos.

Calma, não sou esse Coração Gelado. Claro que há ressalvas. Eu falo por mim, que tenho ótimo relacionamento com boa parte das pessoas que atrelei para vida graças aos relacionamentos fracassados – dos poucos namoros às amizades falidas; Deixei de ser amiga de uma colega de escola e me tornei amiga da mãe dela; Deixei de ser nora e me tornei amiga de Facebook; Me aproximei ainda mais de amigos dos ex-namorados que me acrescentavam coisas boas. Enfim, eu adaptei o que me fazia bem – e descartei, no meu tempo, o que fazia mal, fazia nada.

Pontes de argila versus pontes de barro  é a leitura que fiz ainda há pouco, com uma pessoa cheia de pontes de argila, para a arte do desapego. Não estou certa se consegui passar pra cá o que estava na minha cabeça, mas é por aí. Superar não é fácil, e nem impossível. É preciso querer e se perceber bem maior do que essas pontes de argila que a gente cisma em manter e que nos prendem a suposições que nunca nos deixarão em paz – a menos que você volte olhos, força e braços para construir outras pontes. As pontes de barro.

Ragazza

A menina merecia descanso. E, talvez, um pouco de descaso. Voltar o seu corpo para o seu próprio espaço. Mergulhar em seus próprios oceanos. Disparar com suas próprias armas. Por tantas vezes voltou as mãos a ombros largos e vazios. Ou então, ousando desafiar suas próprias vontades, deu corda num sentimento estacionado até segunda ordem. Não se forçou a amar por não apreciar o risco? Foi isso? Estagnou-se? Não. Estragou-se? Também não.

Numa tarde de domingo, sentou-se junto de garrafas vazias e cabeças em similar estado. Olhou para as garrafas. Olhou para os lados. Olhou para si. Ao não ver nada, em nada, descobriu do que precisava. Precisava de alguém, não de vários. Não mais eram necessários outros rostos, outras vozes e outros lábios. Sensações delicadas e singelas se condensaram em tudo que sempre oferecem os mais fáceis atalhos.

E, a partir de um estalo, sentiu-se leve o bastante para constatar que não podia deixar sua peculiaridade escoar pelo ralo. Não, ela não se fez de rogada: chutou as malditas garrafas e empoleirou-se no primeiro coletivo que encontrou. Fugiu sem que ninguém percebesse, nem mesmo ela. Sem sapato de cristal, lá se foi mais uma Cinderela.

Pelo caminho, remendou-se por conta própria usando a cola do pensamento. Palavras soltas e presas;  Frases prontas e mal acabadas; O que doou e não resgatou; Um rosto único sem par pra rejunte. Em vão. Faltou vedar o que havia de sobra no coração, até então. Pausa. O coletivo parou, e no destino previsto ela chegou.

Rumou ao canto que não é seu, mas era onde selava refúgio. Um banho, um copo de café e um barulho que refrescava. Trocou o calor pelo vento frio até que adormeceu e sua alma passeou por um sonho que já teve outrora. Um sonho pesado, a prévia do que ignorava para ela mesma. E agora?

“As coisas são como são, ragazza.
Vai por mim, ou vá por onde quiser.
Mas esteja certa de que as coisas são como são.”

Dizia o sonho assim. Sem face, nem crase.
Enfim.

Quando acordou, já era outra. Quando levantou, já tinha ido longe. E por ter ido tão longe que agora precisa descansar, sozinha, sem ninguém pra acalentar. Esvaziou a mente, deixou poucos elementos por perto e entendeu da maneira mais fácil que algumas coisas são porque precisam ser.

Dos amigos aos inimigos, dos amantes aos mal-amados, dos infelizes aos extasiados – não poupou ninguém, nenhum. Arquivou todos numa caixa enorme, de importância mínima. Guardo aqui o corpo, as atitudes, em outro lugar, dizia. Qual? Não sei, ela não me contou – ainda.

Por fora, a menina me parecia tão calma e tranquila, embora existisse dentro de si uma monstruosa euforia. Um turbilhão de sim e não, onde só ela sabia o que a deixava ir e o que a deixava ficar. Afinal, após alguns dias, aquela mesma menina se libertaria de um breve delírio dado em um único dia em meio a fugas, rupturas e suturas, estivesse a tal caixa cheia

ou miseravelmente vazia.

Relato – alerta – relato

A cada dez vezes em que tento não fazer disso um catalizador da minha vida e sim um apanhado de pensamentos vagos e ideias românticas ou românicas do mundo, uma vai fugir da tentativa. Uma como essa, de agora.

É engraçado: você come o pão que o diabo amassou, se entope lenta e miseravelmente com a massa só que o capeta ainda quer te enfiar mais pão goela abaixo. Quer dizer, não é engraçado, é sujo, injusto, descabido. O perdão: que bonito, que poético. Perdoar é divino, o clichê é barato mas paga-se um preço caro quando a bondade é atrelada a ele. Desculpar, aceitar a retratação já é algo mais fácil e prático. Quase automático, um impulso involuntário quando sentimos que devemos esquecer tudo que nos fizeram de mal e seguir em frente.

Mas vai falar isso pra quem tomou tanta porrada assim na cara, amigo!
Vai lá e conta pra quem viveu no breu se é fácil dar reset na cabeça!

Não é. Não é mesmo. Relacionamentos abusivos são relacionamentos abusivos. Pessoas que não se importam com as pessoas, apenas com seu próprio umbigo. Há um monte delas por aí e eu, há um tempo atrás, tive o desprazer de agregar alguém assim pra minha vida. Muito chifre, muita mentira, muita maldade, muita agressão, muita loucura, muita maldade.O preço eu paguei com
sofridos 24 meses preciosos da minha vida. Não fiz outro carnê, claro. Não tinha emocional pra pagar nem mais um pingo de abusividade. E nem saúde também.

Se eu dissesse que tudo foi válido, aprendizado e toda aquela balela de crescimento pós-fracasso seria mentira porque ano passado mesmo eu dei de cara com o mesmo tipo de gente totalmente cheia de egoísmo e maldade por dentro. Nesse caso em específico eu pulei fora bem antes de 24 meses, felizmente.

Retomando o assunto central

Mesmo com o ponto final, o algoz ainda queria inserir vírgulas, coisa que não permiti, obviamente. Troquei o número de telefone, e-mail, redes sociais, tudo. Quem me conhece a fundo sabe que eu adoro uma vírgula no meio de poréns, mas quando eu taco o ponto final é ponto final e ponto. E ponto. Foi o que fiz pra voltar a viver, voltar a querer viver, voltar a querer confiar e, finalmente, confiar.

Beleza que eu fiz todo o trabalho de confiar e tomei um outro chifrinho mas isso foi galho fraco, com o perdão do trocadilho. O importante mesmo era restituir a capacidade de confiar e gostar de alguém outra vez. E isso foi devidamente reparado através do meu talento nato pra me remendar todinha, pedaço por pedaço. Ah sim, muitas pessoas queridas também pegaram linha e agulha e me deram uns pontinhos de salvação – e sou eternamente grata a cada uma delas por me amarem tanto assim.

Pois bem. Eu gosto de contar o tempo que as coisas boas duram. Coisa ruim até fico com o tempo mais ou menos gravado na cabeça, tipo essa porcaria que tô relatando, mas quase sempre eu priorizo e deixo vingar na memória o que foi bom. Por conta disso eu confesso que nem lembro mais se saí dessa há uns 5 ou 6 anos. Bom, a despeito disso de qualquer jeito, o ponto é que essa fruta podre reapareceu pra me pedir o tal do perdão do qual falei lá em cima. O perdão bíblico. A absolvição pra tudo de ruim já feito. O deitar com a cabeça tranquila no travesseiro. Foda, né?

E aí cabe o real objetivo ao dizer isso tudo pra quem vem aqui e lê essa joça. Here we go.

Primeiro ponto: CUIDADO com a INTERNET.

Eu conheci essa bosta pela internet, graças ao falecido Orkut. Da mesma forma, o infeliz descobriu meu número de telefone e fez o favor de me ligar. Alguém pode ter dado meu número? Sim, pode. Ele puxou algum registro meu em que deixei aberto meu contato? Sim, também é possível. Acontece que toda e qualquer alternativa foi viabilizada pela internet. A internet foi o meio para o fim, que era falar comigo. Hoje foi um celular, amanhã pode ser uma informação bem mais relevante. Por isso, atenção: CUIDADO COM TUDO QUE VOCÊ DEIXA DE RASTRO SEU NA INTERNET.

Segundo ponto: você não é obrigado a perdoar NINGUÉM.

Sai dessa. O perdão não vai mudar o que já aconteceu e ainda te coloca numa puta sinuca de bico: se você não perdoa, é cretino; Se perdoa, absolve quem pintou e bordou contigo – e fica de trouxa. Claro, você deve fazer o que melhor lhe couber mas não se sinta pressionado quando alguém joga um “Me perdoa por ter dado no meio da sua cara?” no seu colo. Faça o que quiser fazer. O que QUISER fazer. Só não faça algo apenas porque alguém disse que era o certo.

Terceiro ponto: não bata palmas pra MALUCO.

Além do perdão, a pessoa queria saber se ia ao Rock In Rio como se fosse um BFF. Veja bem até que ponto chega a falta de bom senso do ser humano. Tenha cautela com o check-in nas redes sociais. Lembro de alguém que foi sequestrado graças ao Foursquare mas vira e mexe posto algo denunciando onde estou, ignorando totalmente a informação. Pessoas abusivas usam da sua índole pra arrancar de você aquilo que elas querem. Fale que vai pra puta que pariu – como eu falei – mas não dê satisfação a qualquer um e evite fazer um check-in quando estiver sozinho (a) por aí.

Quarto ponto: faça uma LIMPA em todas as suas redes sociais.

Tem meio a ver com o que houve e também não, mas só pra ilustrar o que quero dizer. Por esses dias, uma quantidade razoável de pessoas com quem tenho a menor intimidade me perguntaram coisas muito particulares no Messenger do Facebook. As perguntas iam de “Ainda trabalha no Méier?” até “Você também está morando em BH?”. Ai eu saquei que tem gente MUITO de olho no que eu faço através do que posto, sendo que tava crente que só umas meia dúzia de gato pingado lê ou vê com o que publico. Ledo engano. E, voltando ao assunto-mor do post, eu recomendo a limpa porque descobri que não deixo meu telefone disponível em lugar nenhum, o que me faz concluir que alguém foi lá e deu o número. Ok, pode não ter sido isso, concordo. Mas também pode. E sabem o ditado – brega – que a inveja tem sono leve? Então, brega mas bem pertinente, ainda mais hoje em dia com tanta gente tan-tan da cabeça perdida por aí. Na verdade, eu tô pensando em fazer um outro perfil com bem menos que 684 pessoas -e também porque dá um trabalho ferrenho fazer uma limpa.

Quinto ponto: não aceite QUALQUER PESSOA nas suas redes sociais.

Crie um critério: amigos de escola, ex-colegas de trabalho, parentes, amigos da vida, amigos da faculdade. Quem você quer que tenha notícias de você? Faça essa pergunta a você mesmo e não aceite qualquer um que aparece absolutamente do nada. Nem todo mundo vai achar o máximo você batendo perninhas no Caribe. Ou aquela foto divina com seu boy ou girl magya. Faz uma limpa e restringe quem pode ver suas coisas. Likes e comentários não vão te deixar rico – e nem vivo se alguém surtar e se tornar um obcecado doentio por você. Drástico mas necessário.

Sexto ponto: não deixe que algo RUIM afete você.

Me deu tremedeira, dor de cabeça e vontade de vomitar ouvir uma voz tão hostil, apesar de ter vindo com ares de mansidão e até acompanhada de lágrimas. Mas passou, transcendi disso. Liguei pra Vivo e pedi pra bloquear todos os números com DDD 11, simples assim. Sim, você pode pedir coisas específicas desse tipo pra sua operadora quando precisar. Optei por não trocar o número porque não seria proveitoso, então foquei na solução que é essa e fim de papo. Não estou preocupada em não receber mais ligação de SP, até porque meus poucos amigos de lá me acham por outros meios. Me preocupa bem mais ter um psicopata atrás de mim e me ligando pra falar merda.

Enfim, fiz o que achei que devia fazer e seguirei meu baile. Não me afetou, só exigiu de mim providências práticas. E era isso que eu queria, porque apesar de parecer ser tão complicado fazer isso tudo que disse acima por uma gama de razões que a gente teima em sustentar, é muito importante zelar por você mesmo, sabe? E ninguém vai fazer isso por nós. É um exercício. Lembrando que você tem sua pessoa física e sua pessoa jurídica. Sua vida social não precisa ser necessariamente e totalmente pública, assim como a vida profissional pode vir a ser caso a sua área de atuação incline pra isso. No final, a proposta é que você entoe o seguinte mantra todos os dias: quem eu quero que se importe comigo e quem eu não quero?

Em tempos de caos urbano e tanta violência gratuita creio que o alerta seja muito válido – só não é pra desenvolver uma mania de perseguição e achar que todos os seres do planeta são psicopatas. Se eu não penso assim, por que você vai pensar?

Fica

Fica mais um pouco. Ou quem sabe muito. Mas vê se fica. Fica pro almoço, pro jantar. Fica pro lanche. Fica, vai. E fica agora, não amanhã. Fica antes também, que mal tem? Fica aqui, não lá. Lá não tem nada pra você. Fica porque aqui tem. Fica porque tem que ficar. Fica de pijamas, fica de meia. Fica na cama, sofá ou cadeira. Fica onde você quiser. Mas fica. Fica quieto, que é bom. Fica elétrico, que é ótimo. Fica eufórico, efusivo. Fica sereno, tranquilo. Fica calmo, bem leve. Fica pro jogo que começou. Fica pro filme que ainda nem rodou. Fica pra gargalhar, fica pra chorar. Fica pro rock pauleira. Fica pro sambinha da vitrola. Fica pra passar as horas. Fica pra dor, fica pro amor. Fica pra muito amor. Fica pra muita dor. Fica pros gritos, de prazer e de sofrer. Fica pra ser sacana. Fica pra ser criança. Fica pra pipoca, fica pra lavar a louça suja. Fica pra mais uma conversa. Fica pra mais um café. Ou dois. Ou sete. Fica pra ser insone, notívago. Fica pra reclamar. Fica pra elogiar. Fica pros galanteios. Fica pros bocejos. Fica pra serenidade. Fica pra sacanagem. Fica ué. Fica com fome, fica com sede. Fica sóbrio. Fica bêbado. Fica magro, fica gordo. Fica monossilábico. Fica tagarelando. Fica com ciúme, fica indiferente. Fica crente, fica descrente. Fica normal, fica estranho. Fica mudo, faz mímica. Ou escreve, e rima. Fica cansado, fica disposto. Fica entediado, ocioso. Fica brega, fica escroto. Fica fofo, carinhoso. Fica com raiva, furioso. Fica puto, até horroroso.

Só não fica pra se esvair,
cair,
ruir
e, depois,
ir.

Fica aqui, pra sorrir. Fica porque quer. Fica porque eu quero também.
Fica porque tá tudo, tudo bem – quando a gente se tem.

Maratona

Transborda a urgência. Tanta pressa para quê? Se descompasse, reduza a velocidade. Você não vê? O tempo vai escorrer por entre seus dedos de qualquer jeito. Feito ou refeito. Sem dó nem piedade. A clemência não vai pedir passagem, apenas a sua vontade. O músculo lateja, e a cabeça fraqueja. Temporize. Detenha-se. Talvez seja melhor viver pela metade.

Oras, que viagem. Não há combustível que calibre a minha voracidade. Quero tudo e quero agora. Sem ordem, nem prescrição. Surrado, destroçado, atordoado. Totalmente avariado. Há poucas rédeas nesse meu coração. Me deixe ser acelerado tal qual as pulsações do guerreiro, então.

Claro, como quiser. Vá de imediato ao súbito cansaço. A estafa fez o convite, seja nobre e aceite. Se deleite com o desgaste que promoves em si. Não é mais problema meu. E nem seu. Caso de saúde pública. Perdeu-se mais uma boa alma em meio a tanta amargura.

Não sou insano. Nem são. Quantas vezes mais terei que vislumbrar uma nova distância a alcançar? Para procurar sem achar? Sabe lá Deus o que já fiz pelo cessar. E fiz por fazer. Minhas preces não se fizeram valer. Não fujo de nada, nem de ninguém. Procuro refúgio dentro de mim? Talvez sim. No exausto vazio de uma corrida sem largada, sem chegada. Sem fim.

Subentendido

Você não sabe o que é. Você talvez nem entenda o que seja. Mas eu entendo. Entendo e vejo além do que poderia alguém ver. Não tenho medo, e nem coragem. Fico no meio termo? Talvez seja o meio-termo? Até que me provem o contrário, não há regras, não há padrão. Ponderar o provar nunca foi tão fabuloso. Ou não. Tenho um problema, encontro a solução? Claro que não. Esclarecer é mais difícil do que tirar o amargo da boca de um homem. Se é prático, de onde surge o obstáculo? Da sua cabeça, eu diria. Em pronto atendimento, pleno passatempo. Tudo tão vago, escasso. É o relógio da própria máquina a pulsar sem parar. Até que chega a hora marcada, o dia contado, a cena cortada. Videotape da sala de cinema privada. Sim, eu mandaria rodar todos os filmes se preciso fosse. E em câmera lenta, por favor. As melhores cenas, as melhores falas. Não, não diga nada. Só assista. Assista e resista. Quanta hipocrisia. É audácia, é bobagem pensar nas coisas que são apenas coisas. Seria melhor viver sem isso, admito. Mas, me diz você. E se as mudanças pedissem passagem? O que você faria? Se desesperaria? Sorriria? Aceitaria? Velha tentativa nova de me ludibriar. Eu fiz, eu fui, eu irei. Até onde posso, até onde quero, até onde vou. Não pode? Não quer? Não vai?  É, disso eu já sei.