“SABER/FAZER/TER” – QUÊ?

Na vitrola –  “Maybe Tomorrow” Stereophonics

Quando voltei a postar neste humilde blog, juro que a intenção era escrever sobre o que penso do mundo, não de mim. Eu já fiz isso tantas vezes que hoje reconheço ter pecado pelo excesso em tanta exposição emocional – e literária. Contudo, entretanto, todavia… é, farei exatamente isso neste post pelos motivos que se seguem – e não necessariamente em ordem de relevância.

– O que vou escrever pode ser útil pra outras pessoas;
– O post valoriza a minha linha de pensamento;
– Porque eu quero, ué.

Beleza, mea culpa feita, seguirei meu baile.

Por esses dias eu me senti muito de saco cheio de tudo, de pessoas a lugares; De situações a condições; De opções a conduções. E esse grau de descontentamento foi tão gritante que eu me tornei a criatura mais indolente e procrastinadora que eu poderia ser, sem culpa alguma, menos ainda reflexão. Bom, ao chorar minhas pitangas pra única pessoa que consegue me entreter de alguma forma 90% agradável – e adorável,  eu até que senti certo conforto, alívio. Bateu aquele estalo traiçoeiro de “Opa! Não tô maluca e não é exclusividade minha tal insatisfação geral. Menos Mal”. E traiçoeiro por quê? Porque é nele que mora o perigo.

Saber que alguém vê (ou passa pelas) as mesmas coisas que você vai ajudar, não solucionar.
(E a gente, erroneamente, sempre acredita que ajuda e conforto nos libertam de qualquer demônio cotidiano)

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Tamo junto, mano Logan

Independente da constatação acima, depois de superar temporariamente a fase “Ó vida, ó azar”, parti para o que realmente interessa nessa vida de merda: solução. E o que meu cérebro ofereceu? Só ideia de bosta, claro.

– Se pagar 75% de imposto numa casquinha que me tira do bolso R$2,00 me revolta tanto, então morar no exterior é a solução;
– Se eu estou desmotivada na vida pós-faculdade, então me entupir de atividades legais e fofas é a solução;
– Se eu, definitivamente, não gosto do meu bairro, então a solução é morar num “meia-água”, comer comida congelada e andar toda amarrotada por aí;
– Se eu ando tão ansiosa e agoniada, então a solução é encher o bucho de porcarias industriais ;
– Se a insônia está me roendo os ossos, então a solução é assistir um filminho maravilhoso 3am;
– Se tem trabalho até 2056, então a solução é praticar o bom e velho home-office;
– Se … (ah, isso eu vou deixar em off porque não cabe no poema expor).

Como disse, só ideia bosta.
“Mas, pera: Marcele, não são ideias tão bostas assim. Para de exagerar, criatura!”
São sim, filhão. E vou dizer o porquê (e daqui pra frente vem a primeira parte que acredito servir pra quem vai ler isso)

Após uma senhora semana caótica e confusa, absolutamente do nada o esclarecimento e o bom senso deram o ar da graça e eu cheguei à seguinte conclusão: POUCO IMPORTA

– se na Suíça eu seria mais feliz porque lá tem menos impostos,
– se fazer dança, academia, auto-escola, pós-graduação e curso de massoterapia manterá minha mente e meu corpo mais ativos,
– se, na semana que vem, meu chefe aumentou meu salário e me mudarei pra Botafogo, de frente pra Enseada,
– se comer é condição humana e que se dane eu vou comer muito mesmo,
– se eu tô indo dormir 23h e sem horário de verão em vigor,
– se o home-office é meu pastor e nada me faltará;
– se  (continua não cabendo no poema explicitar essa parte da confusão mental).

Pouco importa porque o problema não está no imposto, na indolência e preguiça, no bolso, no bairro, na gordice, na insônia, no jeito workaholic de ser e na paradinha que não quero explicitar. O problema está unica e exclusivamente em MIM, e eu vou continuar nessa bagaça de vibe ruim e insatisfeita em qualquer lugar do mundo, sob qualquer condição, exercendo qualquer tarefa porque o ato de reclamar me impede de agir e trabalhar com a realidade que tenho, não com aquela que eu quero.

E o que eu quero, Mário Alberto?

Pois é, aí é que tá. Eu não sei. Atualmente, a única coisa que me remete a alguma certeza não tá certa – sad but true, além de confuso demais. O que percebo (e aí vem outra parte pertinente pra quem lê) é que nos sabotamos o tempo inteiro. Procuramos desculpas pra tudo, poréns pra tudo, razões pra tudo. Vai ver que não existe nenhuma razão realmente aparente pra tanto incômodo geral da minha parte – o que é pouco provável. Ou vai ver é só uma fase e há de passar; Ou então eu tô sendo completamente imbecil e perdendo a oportunidade de repensar numa série de coisas que surtirão considerável efeito futuro só porque estou preocupada com… o futuro.

É muita redundância pra uma pessoa só, Brasil!
(E pensar nisso tudo não me levará a lugar nenhum, já sei)

Como eu fiquei com a última opção, digo que não é fácil se admitir trouxa e ignorante, mas necessário. Parênteses : quanto mais a gente se enxerga capaz de algo, menos potencializamos nossas energias naquilo. A gente não se dedica, só executa –  e a cobrança interna é aterrorizante. Agora, vá e faça algo que nunca imaginou fazer. É um outro tipo de tesão. É outra sensação. É Copa do Mundo com mata-mata. É lindo! É TETRA!

Disseram-me verdades nesta sexta-feira que impactaram meu id, ego e  superego. Não doeu mas machucou. Criou aquela casquinha, sabe? E o desafio daqui pra frente é deixar a casca cumprir seu papel e se segurar pra não arrancá-la antes da hora.
(lá vem o terceiro, derradeiro e último conselho neste post – e o melhor, de longe)

“Saber esperar e saber agir” é a ordem, porém não é maior que:
“Aprenda para saber, não só para ter.”

Parênteses: o petardo filosófico acima foi dito pela minha maravilhosa cabeleireira e amiga, Verônica, a quem devo muitos lampejos de inteligência e racionalidade nos últimos anos.

Não vou mentir e dizer que estou me sentindo tal qual uma libélula saltitante e que tudo melhorou após a reflexão porque, é claro, ainda me sinto muito de saco cheio. A diferença é que, no saco, tem o descontentamento, a inconstância e a preocupação (e sempre vai ter), mas também tem um bom punhado de astúcia pra me aproveitar do que eu tenho e esquecer (pelo menos até que eu perca o controle mental novamente) do que eu não tenho, AINDA.

Solidão em troca de política? Dispenso.

É sempre assim: chega o período eleitoral e junto com ele aquela vontade absurda de convencer todas as pessoas do mundo a pensarem como você. Ou, pelo menos, a entenderem suas escolhas. Não é um tanto quanto pretensioso demais? Bom, me parece que sim. E não digo isso pela questão partidária da coisa e menos ainda por apreciar o já famoso “ficar em cima do muro”, digo pelo simples fato de que perdemos tempo, energias e até o bom humor numa dessas. Amizades são desfeitas, opiniões são desrespeitadas. E tudo isso por causa de política? E tudo isso pra que a sua ideia do que é correto prevaleça? Pare, respire fundo e pense: Será que você sabe mesmo o que faz sentido na política? Será que medir amizades pelo pensamento político do seu coleguinha é coerente com aquilo que o tal do “ser amigo” deve significar?

Pois é, enquanto você pensa aí eu seguirei com meu texto. Ok?

Eu concordo em gênero, número e grau que política é um tema recorrente e de extrema relevância na nossa sociedade, viver em democracia, em síntese, é isso. Porém discordo completamente que essa mesma política seja responsável por homéricas discussões estúpidas e demais malefícios ao nosso convívio. E aí você vai dizer que não é discutir, é expressar o seu ponto de vista, certo? E aí, caro leitor, eu vou dizer para você o seguinte: ponto de vista não é sinônimo de verdade absoluta. É bonito, poético e emblemático que tantas pessoas se dediquem a uma causa, seja ela qual for, contudo, é menos bonito, poético e emblemático a possibilidade do meu ponto de vista ser amplamente diferente do seu? Sim, deixei outro questionamento pra você refletir. De nada.

Óbvio que algumas coisas devem ser discutidas, desde aborto até discriminação racial, só que tais temas não são, necessariamente, atrelados à política. Ainda que apareçam casos alarmantes como, por exemplo, as recentes declarações do presidenciável Levy Fidelix, isto não quer dizer que as problemáticas da sociedade giram em torno dos políticos. Eles são, de fato, formadores de opinião, mas a coisa adotou proporções que ultrapassam as siglas partidárias, compreende? Não é culpa da Dilma ou do Aécio que o seu vizinho agride a esposa pela noite. Não é culpa do PT ou do PSDB que o termo macaco seja proferido aos negros como se fosse um bom dia. Não é culpa, e aí não é MESMO, de nenhum partido que você ainda não entenda que não somos reis e rainhas da razão, e sim súditos dedicados das dúvidas e questionamentos. Prova disso é que eu deixei uns dois soltos no texto pra reflexão e não tenho nenhuma verdade reconhecida em cartório para oferecer, não.

E, só pra lembrar: o voto deveria ser secreto. Então, no melhor dos mundos, cada um escolheria quem melhor lhe agradasse e pronto, fim de papo. Você não teria desperdiçado sei-lá-quantos caracteres no seu Facebook, desfeito sei-lá-quantas amizades e tido sei-lá-quantas dores de cabeça desde que o período eleitoral começou. Ao analisar o quão chato todo mundo se torna quando há eleições, consigo entender a razão pela qual a sua escolha nas urnas não deveria ser divulgada: única e exclusivamente pra você sobreviver a este período enlouquecedor.

Lembra da primeira “pulga” que coloquei atrás da sua orelha? Pois bem, voltemos à ela sob o seguinte mote: Reza a lenda – e também a vida real e fatos reais – que todo político é safado, não presta, não possui focos e propostas concretas e, portanto, seu objetivo-mor dentro da política é sugar o povo através de impostos e salários exorbitantes. Logo, se o canto da sereia  é esse, concorda que não é nem um pouco racional fundamentar 3 ou 4 meses da sua vida em ideologias políticas que nem mesmo você confia, nem mesmo você acredita? Outra vez, convido-o a parar, respirar fundo e pensar. Não, eu não quero verdades, eu quero que você reflita, pondere e avalie, porque se tem uma coisa na qual eu acredito surtir efeito em qualquer ser humano do planeta é a vasta exploração do cérebro. Divirta-se na busca pelas respostas que nunca teremos. Se quiser, faça até uma pipoca pra acompanhar o espetáculo que é descobrir-se um completo comedor de mosca que só reage e age, mas não produz.

E agora que o momento se aproxima, se afaste dessa ideia estapafúrdia de reclamar do raio da política, incluindo candidatos, partidos, causas e demais fundamentalismos ao mesmo tempo em que a executa nas suas redes sociais, com seus amigos, com sua família ou até na padaria. Afinal de contas, domingo você precisa votar e tanto faz se você quer ou não porque diferente da “lenda urbana do voto secreto”, votar é obrigatório e implica numa série de punições àqueles que não o fazem. Não é? E será que não é este o X da questão? Opa! Finalmente cheguei onde queria. E espero, não exijo, que você chegue também.

Em suma: mesmo que vote no Garotinho eu seguirei sua amiga, filha, colega, conhecida, flerte, vizinha etc. E prazeirosamente escrevendo pra você.

Tereza na praça

Mais um isqueiro que não funciona. Por isso prefiro os palitos de fósforo, não tem erro e…
Opa! Tudo bom? Meu nome é Tereza, estava aqui reclamando dos isqueiros contemporâneos antes de você chegar. Deixe disso, estou bem em pé. Sente-se você, se quiser. Os bancos dessa praça vivem sujos mas hoje parecem limpos, aproveita. Na verdade, fico o dia inteiro sentada numa cadeira miserável de desconfortável, então é um favor que me faço ficar em pé olhando o movimento, as pessoas…

Ainda há pouco passou uma moça por aqui segurando um buquê lindo de rosas brancas, toda faceira. As maçãs do rostinho da bicha eram uma coisa de cheias. Que bela imagem da culpa, pensei. Romance? Não me venha com essa, né? Não existe isso não. Você acredita? Veja bem, você é novinha, cara de mocinha de 15 anos… Tem 27? Ah, aproveita essa juventude, filha. Não entre nessa de romance. Gosta de homem, certo? E qual é o seu tipo? Da sua idade ou mais velho? Branco ou preto? Gosta dos tímidos ou dos canalhas? Vai, me conta!

Como assim não tem preferência? Tem que ter, minha filha! Não é qualquer um que te serve. Homem sempre tem preferência, sabia? A gente pensa que não mas tem. Não é só ter peito e bunda mais que vale. O mercado tá cruel. Cruel. Você olha pro lado e só tem viado, olha pro outro e só tem borracha fraca. Não tá fácil. Bom, tudo bem não querer se expor, conversinha informal de praça… Você tá certa.

Ih, olha lá aquela ali. d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a  com aquele celular na mão, quase enfiando a cara na tela. Como vocês conseguem? Eu não entendo essa sua geração. A bicha nem pisca, tá vendo? A comida dela ali, esfriando no prato, e ela com o olho colado no telefone. Por isso tá magra, deve ficar nisso o dia todo. Aí quando o cara finalmente responde é só um Oi! e vocês vendem pra si como se fosse a coisa mais espetacular do mundo. Tô mentindo? Eu sei disso, vocês hoje em dia se contentam tudo com migalha de macho. Se bem que na minha época era a mesma merda, talvez pior. Levou no portão já era o amor da vida. Era porra nenhuma. Homem é tudo igual, espécie maldita. Só trazem desgraça pra vida da gente…

Olha! Olha! O paquerinha deve ter respondido, daqui tô vendo os dedos dela na tela. Inclusive, como é ruim escrever nessas merdas, viu? Conheço gente que corta as unhas pra mexer nessas porcarias e ficar no tal do Facebook e esse outro, o Zap. Não tenho nenhum dos dois, prefiro viver. Você tem, né? Ah, sabia. Eu não tenho e nem quero, internet é outro atraso de vida, só que esse é sem piroca. Vocês perdem muito tempo nessas porcarias e esquecem do mundo aqui fora…

Puta merda! Tá chorando! Vê se tem cabimento uma bichinha daquela ali, linda, chorando e largando a comida do prato. Cadê a mãe dessa garota pra dizer que homem é tudo filho da puta? Pra deixar isso pra lá e comer a comida toda? É foda… Vou até acender um cigarro. Que tristeza, viu? Isso acaba comigo, essas garotinhas cheias de charme virando uma Tereza de 40 e poucos anos por causa de um merdinha qualquer. Não, não tô exagerando, as moças de hoje são muito mais estúpidas que as da minha época. Antigamente, minha filha, a gente se valorizava, sabe? Não que também não tivesse muita bobinha porque tinha, mas a gente pensava bem antes de levar alguém em casa. Já na época da minha mãe era pá e pum: pegou na mão e já casava…

Levantou, e o prato ficou. Não tô dizendo? Aí chega em casa, a mãe pega a bicinha trancada no quarto e nem sabe o motivo. Você conta pra sua mãe quando alguém te parte o coração? Sério? Mas ela percebe como? Você fica chorando também igual aquela ali, né? É… reparando melhor você tem cara de que cai no choro por causa de homem mesmo… Não! Vai chorar? Eu falei merda? Toquei na ferida? Mas você estava tão tranquila aí me ouvindo, poxa. Tá sofrendo? Ah, não. Sofre não. Homem nenhum vale esse berreiro aí, acredita em mim. Enquanto você tá triste estão todos sorrindo, seja por causa de piranha, de dinheiro ou de babaquice. Homem é tudo babaca. Te falar que até tentei gostar de mulher depois de burra velha, só que mulher é o catiço. Única virtude do homem é essa, eles conseguem aturar a gente. Bem ou mal é isso mesmo. São tudo filho da puta? São. Mas tem um lá e outro cá que presta. Ou que pelo menos dá conta do recado, consegue cuidar da gente.

Mas não fica assim. É coisa antiga? E qual é o problema? E como que um cara não gosta de você? Carinha de garotinha, educada, toda cuidadinha… E como você sabe que ele não gosta? Tá nem aí pra você, é isso? Há anos? Pula fora disso, menina! Vai ficar se consumindo por causa de porcaria? Um mundo inteiro pra você ganhar, caceta. Faz isso com você, não. E não pode por quê? É casado? Bandido? Não trabalha? Tem outra? Fala, minha filha. FALA!

– Meu pai.

Da Janela

Olha só ela, lá da janela. Vagas noites de frio de uma vida por um fio. De esperança? Temperança. Ela é feita disso aí mesmo. Aquele franzir de testa não mente. Não há recomeços, tropeços. Apenas me escute e não relute. De rasos amores,  futuros e passados. Ultrapassados. De risos siderados, todos presos em eterno colapso. Tolos espaços que ela não mais preenchia. Lá da minha fresta não consigo ver ninguém tão na dela, e tão ela. Na janela. Fechada ou aberta, sei que lá está ela.

Então me diz o que essa moça tem. Ninguém sabe, nem eu também. Sei da janela, minha fresta, e dela. Das posses, passos e traços mal traçados eu não tenho ideia. E talvez nem ela.  E assim as coisas passam e ela fica. Na janela, imponente que só ela. Perdida no vai e vem que embalam as esquinas. Noturnas. Soturnas. Iguais. Diferentes. Vai ver que se enche de um vazio que não preenche. E enche.

Olha só ela, lá da janela. Contida, sentida. Ressentida. Foi mágoa, penso assim. O olhar perdido denuncia a verdade do que se passou para além da janela. Da janela dela. E eu sigo na fresta. É o que me resta. Daqui eu olho pra tudo que não vejo. Me esqueço do que não se completa, inebria. E desapareço no meio de tanta teoria. Que agonia.

E como se enquadra bem o mal que isso leva e traz. Dá e não passa. Clave de Sol desafinada. Desatinada. Sofro daqui que ela nem sabe, desconfia. Ela nem me vê, nem me mira. Pobre de mim, perdido na minha própria fantasia e sem ninguém pra me achar. Pelo menos ninguém que eu queria. Porque eu só queria ela, mesmo que fosse lá da janela. E queria ela me quisesse também. Tão bem.

Tá certo, decreto que não sei o que faço, e não sei se consigo me fazer nela. A companhia da fresta, a ausência da paz que se desfaz em cada olhar pra ela. Por ela. Da janela.  Madeira, coração e moldura. Envergou-se a loucura. Por ela. Pra ela. Lá da janela.

Breve Conto do Mar

Indo e vindo, vindo e indo. Não era gostoso de ver como o mar sacudia, ele dizia. E eu atônita, parada, nem piscava. Só olhava pra ele. Pra ele e pro mar. Não tinha saída, e mesmo que eu tivesse juro que não queria. Toda jura é mentira mal dita. E maldita. Clamei conforto em dois abraços, um só me acalentou. O primeiro me pareceu caridade e o segundo sim, foi de verdade. Não quis saber nem por um segundo se teríamos mais segundos assim. Quis porque quis, pelo menos pra mim.

E até então tudo era maresia. Uma levada gostosa que gostava do que nos fazia. E o mar, pra lá e pra cá, mal sabia que éramos poeira num tempo de pouca poesia. No vento gelado se fez o timbre errado da voz que não calava, e errava. E eu, a voz embargada que não se soltava, só sufocava. Não se engasga agora com essas besteiras, engole a seco esse desinteresse, eu me dizia. E repetia, e me esvaía. E caía em contradição. De novo? Hoje não.

E ele nem sabia que eu não estava mais ali, zarpei sem âncora, sem prumo e sem rumo. Do soltar das mãos pro cair das lamúrias. Uma atrás da outra frente ao mar que ia e vinha. Fui pra longe do que eu queria. O corpo, sim, permanecia. A mente não, não mais. Aconteceu, e essa coisa de se cansar do que cansa acontece e a gente nem direito percebe.

Desiste, já fui embora desse barco furado. Não há tripulação, não há nada. Só eu e o mar. Pra lá e pra cá. Mas se olho pro lado e ainda o tenho, como vejo a onda quebrar na rebentação? É, tem jeito não. Estou à deriva, sem garantias. E ele, posto em terra firme, me pedia que voltasse pra essa terra que avista e não vejo, ele é que via.

Visão tornou-se turva, perdi a noção. Não sou capitã dessa viagem e nada levo, nem bagagem. Que o céu desse mês me absolva de mais um mergulho trágico. Batalha Naval sem oponente, apenas o coração combatente. Não me segura, não há segurança aqui, assim disse. E solta, mas de vez. Voz e vão. Sim e não. Exaustão.

Agora vai, e vê se não mais fica. Logo menos me aprumo em outra pedra e você pega nova brisa. Assim é a vida, não desanima e se anima pra acompanhar essa rotina de pescador que solta o peixe e conserva a rede. Meu atlântico de desenganos vai me deixar pacífica nesse mar de tanto faz. Pra você a sereia já não canta mais, rapaz.

Nenhum mergulho é seguro.

Acredite, nenhum.
Pode ser num rio propriamente dito ou na sua própria cabeça.

Nenhum mergulho é seguro.

Mas e daí?
Pois é. E DAÍ?

E daí, daqui, dali… Tudo, menos o agora.
Meu asco pelos dias. E por aquilo que me fizeram os dias.
Não morro de amores pela fé, mas me chateia vê-la perdida por aí em algum canto de mim.
Enfim, que venha o fim.

Poesia expelida, vamos às vias de fato do fato: coisas terminam para que outras comecem. Ainda não estou certa disso mas vou arriscar. Chegou um momento assustador na minha vida em que eu pura e simplesmente não consigo sustentar nem metade das concepções e conceituações que a sociedade me enfiou goela abaixo desde que estou por aqui. Ter cérebro é uma maldição, usá-lo é pior ainda. Eu que sei. Ou será libertação e não sei é de porra nenhuma?

Opções temos uma penca delas, cada uma com seu charme, garbo e elegância. A única que não me cabe é ser medíocre e ter uma vida medíocre. Ser mera engrenagem numa roda que nem minha é. Por favor! Cuidemos do que é nosso e deixamos de lado o que não nos pertence. Já tem quem cuide disso. Tem que ter. Sempre tem.

E ter me lembra tesão, e sem tesão eu não faço nada. Absolutamente nada. Só executo. Só entrego. Só atendo demandas. Carros se movem mediante combustível, eu me movo mediante tesão. Verdade nua e crua. Tesão, cara. Tesão. Que termo maravilhoso! E a simbologia? Puta merda, épico. E o que a gente faz com o tesão? Subestima, menospreza, desvaloriza, joga pra escanteio pra que outros sentimentos tomem a frente. Outros sentimentos que não chegam nem perto do que o tesão te dá.

Não, eu não tô falando SÓ do tesão conotado especificamente para o sexo, amor, pegação e afins – este indiscutivelmente indispensável em todas as condições anteriores, lógico. Eu falo do prazer em viver a vida que se leva, de interagir com o mundo que se tem, de fazer as coisas habituais, de ser quem você quer ser, e não quem alguém te disse pra ser porque tinha que ser assim. É o tesão em sua ampla capacidade de deixar você todo arrepiado, da cabeça aos pés. É fervor, calor, pavor, amor, paixão, alucinação… Paudurescência, como diz um amigo meu. É mergulhar em você mesmo. E sem medo, pois já disse que segurança não há.

Optei por não mais arrastar uma bola de ferro por aí. Prefiro arrastar multidões de 5 pessoas pra uma boa conversa, ou um passeio de bicicleta na Orla. Cerveja nem menciono pois há tempos não trocamos fluídos sinceros e volumosos. Uma viagem, uma vontade, um pensamento. Qualquer coisa que tire de mim a carranca da obrigação. Eu não sou obrigada a nada, absolutamente a nada. Tá tudo tão claro, tão coeso. Se eu que sou míope high level vi isso, não vai ser difícil pra você ver também.

Transcender para re-viver.

Essa é a dica.
Esse é o ritmo.

Acredite no feeling.
Tesão sempre e em tudo.
Segurança nenhuma.
Mergulho profundo.

Um beijo de quem acordou pra vida.

ADORO NATAL!

Sim! Tudo bem enfático porque esta época do ano é a menina dos meus olhos míopes. Por mim, teríamos Natal o ano inteiro, por mim, eu me chamaria Natal, por mim, tudo se justificaria através da sentença “Ah, mas é Natal!”.

Pronto. Passada a cota de efusividade, vamos à realidade.

Natal é sim meu feriado favorito. Não, não é pelos presentes, nem pela comida e tampouco (ok, aqui cabe uma ironia) pela bebida. Eu gosto do Natal porque ele é o meu álibi pra fazer algo que todos nós deveríamos fazer todos os dias do ano, o tempo inteiro. Algo que tornou-se tão escasso e raro na essência da sociedade simplesmente porque a moda ditada é considerar que nada tem salvação e o mundo por inteiro está fadado ao fracasso e ao caos. O Natal é meu bode expiatório para sermos AMÁVEIS.

Esqueça a balela dos pessimistas de que o Natal é a “farra do boi” dos falsos. Deixe disso, desprenda-se desses rótulos. Odeio rótulos. Não somos o que somos, somos o que queremos – e quando queremos. Hoje sou a Marcele fofa que vai escrever lindezas pró-Natal, amanhã posso ser a cri-cri da minha casa e nada disso importa tanto quanto o querer, nem mesmo o que presumem de você – ou tentam.

Mas voltemos ao Natal e o motivo do meu encantamento pela data.

Eu não quis dizer nestas poucas palavras que você deve sair Calçadão de Madureira afora abraçando todos os vendedores de cartões C&A ou a sua rua inteira – até mesmo os vizinhos que você odeia. Quis dizer que você pode e deve ser gentil e espalhar amor por aí SIM. As pessoas precisam disso, é um sentimento substancial e morremos dia após dia com essa falta de ternura e carinho, ainda mais com o discurso de ódio sendo inflacionado por qualquer motivo besta. Nos matamos por religião, por uma matéria de jornal, por um pó branco, por um chifre. Pergunto: é válido?

Tá certo que não sou um protótipo de criatura calma e pacífica tal qual um monge budista mas confesso que dei um upgrade na minha fofura de uns tempos pra cá porque não aguento mais esse mundo mau humorado e de cara feia – mas algumas coisas seguem me irritando consideravelmente e de muitas maneiras, claro.

A verdade é que o Natal me abastece de bons sentimentos e de boas vibrações. É no Natal que eu faço a minha reflexão interna – pois é, você não precisa expor suas considerações no Facebook, pasme – sobre o ano: que ganhei, o que perdi e o que sempre tive. E, apesar de tudo ultimamente apontar o inverso, pessoas são e serão o bem mais precioso que temos, portanto, nem que seja no Natal, nada mais justo do que dar a elas um pouco de você.

Dê um abraço, um “upa!”, um aperto de mão, uma piada, um beijo, um sorriso, uma lambida, um meme via WhatsApp, ou um bom dia. Ou dê cartões, ainda está em tempo e é vintage, já que ninguém mais liga pra eles. Eu, por exemplo, comprei uns 20 que vou distribuir entre amigos e colegas de trabalho até o final do ano (não tive tempo pra escrever todos, trabalho com o varejo, relevem). Acho que é o mínimo ter esse capricho com quem nos acompanha e faz questão, entre 7 bilhões e cacetada de seres humanos no planeta, da nossa amizade e presença. É um privilégio que alguém nos queira bem, penso eu.

Somos chatos, cansativos, reclamões, apressados, ansiosos, egoístas e mais um monte de coisas que bastariam para que cada um vivesse numa redoma de vidro. Contudo, não é assim que a temática da vida funciona. E ela é bem mais gostosa e agradável porque temos com quem compartilhá-la. Não é bonito? Ah, vai… Eu sei que você acha que é.

Não comprou nada pra ninguém? E quem aqui falou do capitalismo? Dar presente não é tarefa fácil, sei bem disso porque passei 2 horas dentro de uma loja semana passada só pra achar no estoque o item que queria sem um mísero arranhão. E passei feliz. Ok? E também não é a única opção de presente que você tem. Hoje em dia todo mundo é um poço de criatividade para uma série de coisas e situações, menos pra agradar alguém. Qualquer coisa serve, até mesmo o nada. Já pararam pra pensar nisso? Eu já.

Então, meus caros leitores, façam de hoje e amanhã o seu álibi para que seus familiares, amigos e demais transeuntes de seu convívio saibam que você valoriza muito a escolha deles. Mas faça do seu jeito, viu? Quem gosta MESMO da gente percebe e aprecia de forma ímpar quando damos um pouco – ou muito, ou médio – de nós a eles.

Natal é legal À BEÇA!
Feliz Natal, queridos! <3